O setting winnicottiano no esporte – Prof. Cozac

O setting winnicottiano no esporte
Prof. João Ricardo Cozac especial para “Reflexões em Winnicott” com trechos da obra “Temas em Psicanálise no Esporte” (lançamento 10/20)
Atuo como psicólogo do esporte há quase 30 anos. Em todo esse período, trabalhei em diversas modalidades e categorias esportivas.


Após as conclusões do Mestrado e Doutorado na área da Psicologia Esportiva, iniciei algumas reflexões críticas sobre o sofrimento psíquico que os atletas vivenciam na rotina do alto rendimento e, a partir delas, decidi que meu pós-doutorado estaria atrelado a uma linha clínica de atuação.
Num momento em que a Psicanálise busca novos ares de atuação – assim como em projetos sociais na Praça da Sé, em São Paulo, e tantas outras iniciativas de vanguarda, passei a pensar o esporte e as demandas psicológicas dos atletas às luzes dessa linha de pensamento e atuação.

Nesse caminho, optei pela aproximação de Winnicott ao universo esportivo por entender que a intersubjetividade é um fator presente e extremamente atuante nas vivências do esporte. Além disso, algumas configurações sociais, educacionais, emocionais e afetivas presentes na nossa realidade esportiva promovem debates importantes sobre o significado da saúde psíquica nas práticas esportivas competitivas.


Em minha obra “Temas em Psicanálise no Esporte” – fruto do meu relatório de pós doutorado concluído no Centro de Estudos Pós Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP, com lançamento previsto para outubro de 2020, afirmo que “as queixas clínicas recorrentes em atletas de alto rendimento frequentemente estão associadas às dificuldades no manejo de situações competitivas que envolvem proatividade e autonomia. Atletas geralmente manifestam aumento da ansiedade, redução da concentração, eventos psicossomáticos antes das competições e outras respostas reativas aos momentos agudos nas práticas esportivas de alto rendimento.


Boa parte dos sintomas comportamentais no esporte está relacionada com as dificuldades de vivências infantis atreladas à formação esportiva. Entre as principais está a experiência precoce do alto rendimento e a alta expectativa de pais e/ou professores trazendo como consequência a dificuldade no enfrentamento de situações que envolvem padrões de comparação e julgamento”.

Com isso, a prática do psicólogo do esporte – como abordo há tantos anos em meu curso de formação em Psicologia Esportiva – deve se dar, também, “para-além-da-clínica” na análise, observação e intervenção em outros espaços potenciais de transformação e expressão dos conflitos e das angústias.


E quais são esses espaços?


Nas piscinas, quadras, ginásios, estádios, arenas e em todos os espaços onde ocorrem a prática esportiva de alta performance. E são justamente nesses ambientes que o psicólogo clínico no esporte deve estar atento e, sempre que possível, presente.

No texto “O Setting Analítico: Situações Clínicas Especiais”, a autora Glória Barros expõe importantes reflexões sobre o setting terapêutico às luzes da teoria de Winnicott.


Na visão winnicottiana, para que ocorra o acolhimento de forma irrestrita, não podemos nos colocar de forma a manter a análise protegida por um setting rigoroso,pois desta forma cairemos no risco de reforçar as nossas defesas como analista e as defesas do paciente, impossibilitando o acolhimento radical do sofrimento psíquico.


A mesma autora conclui que dentro da visão winnicottiana, o setting analítico deve comportar os aspectos relacionados à mãe-ambiente, em que o analista oferece constância, previsibilidade e confiabilidade, tanto pelo ambiente físico quanto pela qualidade do cuidado pessoal, procurando ajustar-se às expectativas do paciente para assim possibilitar o estabelecimento de comunicações mais profundas.


No atendimento a atletas no consultório, pude constatar que um adequado manejo do setting analítico (sem exageros ou faltas) – pode abrir o campo de possibilidade de atuação do psicólogo esportivo em outros ambientes, como acima descrito.


Afinal, como descrevo em meu novo livro “alguns conceitos pertinentes à Psicologia do Esporte como os de “prontidão competitiva” e “fluência no alto rendimento”, comuns às práticas competitivas, exigem uma independência emocional dos atletas que pode ser desenvolvida através da atenção e coerência do psicólogo no manejo do setting terapêutico.


A criação de um contexto que fortalece a confiança do paciente é – além da possibilidade de proporcionar a regressão à dependência – uma abertura para vivências preliminares da independência emocional.


E essas vivências podem ser acompanhadas pelos psicólogos nos espaços da prática esportiva, onde guardam, em si, uma importante potência reveladora e transformadora dos conceitos amadurecidos na prática clínica.


Finalizo essa breve reflexão, lembrando o pensamento de Green, quando afirma que “a diferença entre o homem de bom senso e o psicanalista é que quando um homem de bom senso coloca sua chave na fechadura e verifica que sua chave não funciona, ele conclui imediatamente ser necessário trocar a chave; enquanto que o psicanalista, quando coloca a chave na fechadura e ela não funciona, ele acha que tem que trocar a fechadura”
Obrigado pela leitura e que possamos, aqui, estabelecer diálogos produtivos sobre essa necessária aproximação entre a Psicologia Clínica e a Esportiva.


Dr. João Ricardo Cozac, pós-doutorando em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Doutor em Ciências do Esporte pela USP. Professor responsável pelo curso de formação em Psicologia do Esporte. Contatos para curso:- www.ceppe.com.br / [email protected]