O banquete das escolhas: Big Brother, pulsão de morte e sociedade

Prof João Ricardo Cozac *

15 horas e um trânsito interminável. Achei estranho já que a Marginal Pinheiros costuma estar livre nesse horário. Com paciência, notei que havia um acidente bem à frente e os carros passavam lentamente pelo local.

Avistei um corpo estendido no chão, coberto por um jornal. Mais um motoboy havia perdido a vida num acidente de trânsito. Passei, então, a reparar a reação das pessoas que ali passavam devagar, olhando cada detalhe do acidente, nutrindo a tristeza e angustia que a cena promovia.
Naquele instante tive a sensação de que cada um tem em si um corpo doente que vive em estado de “quase-morte” – e esse corpo precisa ser alimentado de alguma forma. O mercado das tragédias está em todos os lugares e os mantimentos são baratos, fáceis e acessíveis.

Nessa semana, uma das mercadorias mais consumidas voltará às telas : o Big Brother Brasil. Elaborado, desde a escolha dos participantes, com requintes de perversão e crueldade, o “programa da família brasileira” chegará na sua vigésima edição. Foram duas décadas de exposição do pior do humano.

Daquilo que ele jamais pensou que teria coragem de fazer. E milhões assistem, atônitos, as brigas, intrigas, os desentendimentos, a fúria e o ódio. Tudo por conta do prêmio de um milhão e meio de reais. Há canais pagos para os mais famintos que não se contentam com os horários previstos na programação normal. Lá eles podem passar o dia alimentando a gula interminável pela degustação do pior do humano encasulado numa caixa de observação de luxo.

Freud identificou em seus estudos práticos, um desejo inconsciente de morte ao qual chamou de “instinto de morte”. Inicialmente descrito em seu livro Além do princípio do prazer (Beyond the Pleasure Principle), Freud propôs que “o objetivo de toda a vida é a morte” (1920). Essa busca pela projeção na autodestruição alheia torna uma espécie de gozo pela sobrevivência e, simultaneamente, um ensaio da própria morte através do intenso sofrimento do outro bem próximo de si. Para equilibrar as energias psíquicas, na mesma teoria, há o “instinto de vida”, pautado pelas ações de cooperação, amor, respeito e validação de uma esfera generosa e acolhedora enquanto possibilidade de relação pessoal e social.

Ontem assisti ao filme “Viver Duas Vezes” (Vivir Dos Veces) e tive – uma vez mais – a certeza que alimentos saudáveis, construtivos e, sobretudo, com o melhor do ser humano são acessíveis em mercados que se pode frequentar. O filme retrata, com muita leveza e humor (sem perder a profundidade e permanente convite à reflexão) o caso de Emílio, um professor de matemática aposentado que, aos poucos, começa a apresentar sintomas de Alzheimer. Ao final, senti que participei de um “banquete de vida” criado por grandes chefs do inspirado e cada vez mais rico cinema espanhol. Fiquei observando, extasiado, os créditos finais ouvindo “Perfídia” cantada com uma beleza singular.

Acho importante conhecer tudo aquilo que consumimos e saber qual corpo estamos alimentando. Apesar dos apelos midiáticos serem altamente tendenciosos e direcionados aos banquetes maléficos e doentes – alerto para a necessidade da reposição das energias do bem, da luz e da bondade para que se possa haver o mínimo de equilíbrio entre as duas pulsões.

O livre arbítrio é inato e soberano.
E você, de qual banquete tem se alimentado?

*João Ricardo Cozac é psicólogo e pós doutorando em Psicologia Clínica pela PUC-SP.