As tramas psicológicas no futebol brasileiro : o diálogo entre o preconceito, a ciência e o senso comum

b


O futebol, assim como outras modalidades esportivas, apresenta demandas psicológicas e emocionais. No entanto, a visão de dirigentes sobre os aspectos comportamentais dos atletas e das equipes merece uma atenção especial.
 
É alarmante o preconceito com que a Psicologia Esportiva é encarada no futebol. Abaixo, descrevo um pouco desse diálogo desencontrado das demandas psicológicas, o que a ciência já pode fazer para atendê-las e como o mundo do futebol reage a elas.
Nesses últimos 23 anos pesquisando, publicando livros e artigos, estudando atuando e lecionando a Psicologia do Esporte, tive a oportunidade de conhecer muita gente do futebol – e de outas modalidades também. Assim, enumero, abaixo, esse desastroso diálogo do mundo da bola com a ciência da mente que serve para diversas equipes do cenário futebolístico nacional.
Certamente, em muitas demandas relatadas, você identificará seu time do coração.
 
DEMANDA 1 – Equipe nervosa, a bola queima os pés dos atletas, altíssimo número de passes errados e desequilíbrio mental e emocional dentro de campo.
CIÊNCIA (PSICOLOGIA DO ESPORTE) – Exercícios e modernas técnicas de biofeedback e neurofeedback (amplamente utilizadas no futebol fora do Brasil) comprovadamente reduzem quadros de ansiedade e nervosismo, auxiliando os atletas no controle e equilíbrio da energia de ativação interna e na retomada do equilíbrio emocional.
O QUE FALA O FUTEBOL BRASILEIRO – “Que isso, rapaz! Psicologia é coisa para fracotes”
 
DEMANDA 2 – Equipes de futebol viraram verdadeiras Torres de Babel – jogadores do mundo inteiro interagindo em diversos idiomas.
CIÊNCIA (PSICOLOGIA DO ESPORTE) – Trabalho de integração, otimização no fluxo de comunicação, união e coesão de grupo. Isso já é realizado há muitos anos nos grandes times europeus como Barcelona, Real Madri, Ajax, Bayern e tantos outros. Eu mesmo fui pesquisar isso pessoalmente. Certamente a presença desse trabalho nos clubes europeus facilita a união entre os atletas e comissão técnica.
O QUE FALA O FUTEBOL BRASILEIRO – “Jogador recebe em dia e tem que calar a boca e jogar bola”
 
DEMANDA 3 – Contratação de jogadores e ambientação dos atletas na equipe
CIÊNCIA(PSICOLOGIA DO ESPORTE) – Testes, questionários e inventários para análise e levantamento do perfil psicológico/emocional e entrevista individual. Da mesma forma que exames físicos são realizados, é altamente recomendável que um mapeamento psicoemocional seja realizado.
O QUE FALA O FUTEBOL – “Só nos interessa saber da saúde física e técnica do jogador a ser contratado” (aqui, claro, jogam milhões no lixo pela falta de cuidado e atenção diante da esfera comportamental do jogador a ser contratado).
 
DEMANDA 4 – Falta de motivação e apatia. Especialmente nos momentos mais agudos e decisivos, quando a equipe deve estar forte para encarar pressões e expectativas externas.
CIÊNCIA (PSICOLOGIA DO ESPORTE) – O psicólogo do esporte deve frequentar treinos, jogos, realizar encontros multi e interdisciplinares com o médico, treinador e demais integrantes da Comissão Técnica para compreender melhor quais são as demandas do grupo e, assim, formular um trabalho motivacional. Isso demanda tempo e trabalho do profissional. Somente dessa forma será possível realizar atividades motivacionais que estejam associadas com o plano de demandas do grupo.
O QUE FALA – E FAZ – O FUTEBOL – Contrata um comandante do BOPE para dizer que “missão dada é missão cumprida” – ou pede para as famílias dos atletas escreverem cartinhas de amor para os jogadores entrarem em campo chorando e nitidamente desequilibrados emocionalmente.
 
DEMANDA 5 – Falta de lideranças dentro de campo. Equipes sem referências e grupos à deriva nas partidas.
CIÊNCIA (PSICOLOGIA DO ESPORTE) – O psicólogo do esporte realiza mapeamento das relações internas através da técnica da Sociometria. As avalições sociométricas são capazes de aferir quais são os atletas que tem potencial para liderança (atribuição de confiança do grupo) e também apresenta os jogadores que estão sendo excluídos pelo time. Dessa forma, através de orientação psicológica individual (isso não é o mesmo que “psicoterapia”) e trabalhos de integração, é possível elevar as médias das inter-relações do grupo.
O QUE O FUTEBOL FAZ – Coloca esse cara no banco para ele aprender a se comportar.
 
DEMANDA 6 (para mim, a mais importante) – o lado humano dos atletas, apesar da dinastia do futebol empresa, em que os atletas são tratados e se comportam como mercadorias, deve ser trabalhado mais de perto. O desempenho desses atletas pode ser bastante otimizado se houver um profissional da área para atender demandas psicológicas e emocionais que interferem negativamente no rendimento.
CIÊNCIA (PSICOLOGIA DO ESPORTE) – Novamente friso a importância do trabalho de orientação psicológica esportiva. São ações pontuais que oferecem a oportunidade do atleta dialogar e receber um feedback que auxilia na redução da ansiedade que possa estar sentindo por conta de alguma demanda esportiva ou de sua pessoal.
O QUE O FUTEBOL FALA – “Jogador tem que parar com esse tipo de frescura”
 
DEMANDA 7 – As demandas e os processos psicológicos e emocionais necessitam de tempo para serem atendidas.
CIÊNCIA (PSICOLOGIA DO ESPORTE) – o melhor exemplo vem da Alemanha. Lá o Dr. Hans Dieter é considerado o braço direito do treinador da seleção local. O Dr. Dieter atua desde 2001 – junto com outros 14 psicólogos do esporte que atuam no campeonato alemão. Eles se reúnem periodicamente para trocar informações sobre jogadores dos clubes que são convocados para a seleção.
O QUE FAZ O FUTEBOL BRASILEIRO – convida uma psicóloga 13 dias antes da Copa do Mundo disputada no Brasil e, como está documentado e gravado nos nossos arquivos, o treinador Felipão disse em rede nacional que “a psicóloga não ganha nada pelo seu trabalho. Fazemos permuta de favores” (Felipão dá algumas palestras na universidade em que leciona a psicóloga – enquanto ela dá uma “mãozinha” a ele na Seleção durante o Mundial).
 
Depois disso, não posso imaginar o que pensam os dinossauros do futebol brasileiro sobre o sentido científico da profissão.
 
RESULTADO DESSA REFLEÃO:
#eterno7a1
Ficou claro ou precisa desenhar?
 
João Ricardo Cozac é psicólogo esportivo. Atua na área há 23 anos. Presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte. Membro acadêmico, pesquisador e doutorando pelo laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP. Autor de diversos livros sobre a Psicologia do Esporte. Diretor clínico da empresa CEPPE – Consultoria, Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte. Professor titular e diretor do curso de formação em Psicologia do Esporte em São Paulo – com transmissão online e telepresencial.