Síndrome do fracasso neurótico: jogadores e equipes pedem socorro

As demandas psicológicas e emocionais continuam fazendo suas vítimas dentro e fora de campo. Os psicanalistas costumam dizer que “tudo começa na infância”. Neste caso, podem estar corretos. Jogadores de futebol provenientes de famílias menos favorecidas social, educacional, econômica e culturalmente exibem – com preocupante frequência – o que passou a ser chamado de “síndrome do fracasso neurótico”. Comportamentos que testam o poder de autoridades, dimensão dos limites e identidade de mídia. Ora, até onde o atleta pode chegar para defender o apelido de “Fabuloso”, “El tanque”, “Imperador”, “Muralha” e tantos outros codinomes que geram uma rebeldia emocional difícil de ser controlada?

Certamente observamos diversos que se apresentam como candidatos a protagonistas deste comportamento rebelde e contestador diante dos limites impostos dentro de campo por árbitros e treinadores – e pouco (ou nada) vivenciado fora das quatro linhas nos períodos do desenvolvimento humano.

A decisão de se tornar um jogador de futebol tem altíssimos custos e, não raro, deixa sequelas emocionais, sociais e afetivas. Atletas necessitam abandonar períodos fundamentais do crescimento em nome da plena dedicação no caminho da profissionalização. Muitos crescem com carências jamais supridas. Quando se deparam com a fama e imensas fortunas buscam, a todo preço, confrontar as relações de poder com a imagem frágil de uma infância sofrida e cercada de limites e dificuldades.

A sempre presente obra freudiana intitulada “repetir, recordar e elaborar” parece pedir passagem nesse e em tantos outros processos esportivos em que a questão da mudança brusca do papel social, econômico e de identidade é a marca mais aguda dos conflitos emocionais que quase sempre abandonam esses pequenos garotos grandes.

A questão central do desequilíbrio emocional de vários atletas está na caixa preta mental e afetiva destes meninos-grandes que desfilam seus medos, conflitos e inseguranças diante das multidões de fanáticos torcedores.

O mais impressionante de todo este processo é constatar o descaso e a desinformação dos dirigentes e treinadores diante de um quadro que se agrava e expõe as fragilidades de atletas e seres humanos que não tiveram (na vida e nos clubes) o amparo necessário para compreender e melhor lidar com as regras sociais, limites e impossibilidades.

Falar em Psicologia Esportiva no futebol ainda é um tabu. Dirigentes, treinadores (e até atletas) reconhecem que as questões emocionais e psicológicas são importantes e geram prejuízos nos desempenhos individual e coletivo. O problema é que a constatação finaliza a questão e as demandas permanecem.

Afinal, como alguém pode expulsar de campo alguém que é conhecido como “Imperador”, “Xerife”, “Matador” ou “Fabuloso”?
É preciso saber diferenciar “status” de “papel”.

Ser um jogador de futebol, apenas é uma coisa. Um jogador de futebol com fama, sucesso, dinheiro e um belo codinome não é definitivamente para qualquer um.