São Paulo e a fragilidade mental

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São Paulo: refém da fragilidade mental
Por João Ricardo Cozac
Especial para o jornal “A Gazeta Esportiva”

Oito anos sem ganhar do Corinthians em casa e, hoje, mais uma derrota no Morumbi. Antes de descrever a evidente fragilidade psicológica do São Paulo, deve-se elogiar o trabalho do Tite no Corinthians que armou uma equipe aguerrida , com atletas bem preparados física, técnica e mentalmente. A equipe de Parque São Jorge atua como um time coeso e muito bem entrosado em todos os seus setores. Certamente terá ótimos resultados em 2015.

Sei que a Psicologia do Esporte é pessimamente compreendida no futebol, concebida com preconceito e desinformação – mas deixarei – aqui, as opiniões de quem atua na área há 20 anos e percebe, através das lentes mentais, a fragilidade clara de um time de futebol.

O São Paulo desenvolveu uma crença central – nesses últimos anos – que “vencer o Corinthians, em seus domínios, é uma tarefa árdua – um desafio de extrema dificuldade” e, assim, atua de forma reticente, insegura. Essa crença gera pensamentos automáticos diretos no grupo de atletas que, por conseguinte, promove um comportamento de insegura, baixa autoestima e confiança. Não me parece tão complicado entender esse processo psicológico.

O ponto principal do time do Morumbi, a meu ver, é que a soma dos estilos de personalidade dos jogadores do São Paulo gera uma resultante frágil em termos de tendências de competência competitiva. O time consegue se impor apenas e tão somente diante de equipes mais frágeis tecnicamente. Quando os desafios mais fortes se apresentam, o grupo não consegue se unir positivamente em termos de comunicação, força interna e pró-atividade (tomada de iniciativa, ação e reação) nas partidas. Os jogadores demonstram uma apatia contagiante, ainda que consiga uma maior posse de bole – o resultado é bem abaixo do investimento que é realizado.

Afinal: será que é tão difícil assim perceber que o Ganso, por exemplo, não demonstra assertividade comportamental esperada para um camisa 10 do seu porte? Especialmente depois das cirurgias, o jogador nunca mais foi o mesmo. E o que tem sido feito para mudar esse quadro de reclamações após os jogos e apatia dentro de campo? Nada. Rigorosamente nada.

Outra coisa: estão querendo transformar o Luis Fabiano num anjo. Isso é claro e evidente que não funcionará. A questão é desenvolver um trabalho psicológico de adequação de comportamento e não de extinção de suas respostas agressivas que prejudicavam a si e ao grupo por conta das contínuas expulsões. Hoje, Luis Fabiano não é mais expulso, mas também esqueceu como se joga futebol.

Quando as equipes de futebol se abrirem para a ciência da Psicologia do Esporte e pararem de achar que Psicologia é sinônimo de corpo de bombeiro ou pronto socorro, assumindo que o psicólogo do esporte deve ser um parceiro da Comissão Técnica – certamente muitas coisas serão alteradas na compreensão do alto rendimento individual e coletivo dos times – além do conceito de atleta e ser humano que entra em campo.

João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte. Membro acadêmico e doutorando pelo laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP. Contatos –www.ceppe.com.br[email protected]