Rafael Nadal e o repertório interminável de sintomas comportamentais

Toni e Rafael Nadal - 4

Não é de hoje que Rafael Nadal apresenta comportamentos – no mínimo, estranhos. Puxar a cueca e colocar as garrafas de água milimetricamente uma ao lado da outra são apenas dois dos diversos e evidentes sintomas do tenista. O custo interno e o sofrimento desse tipo manifestação comportamental são altíssimos.

Há algum tempo não assistia Nadal em quadra. No Australian Open, fiquei definitivamente preocupado com a saúde mental do espanhol. O repertório de tiques aumentou consideravelmente. Antes de cada saque, o tenista passa a mão no nariz, num lado da face, na testa, no outro lado da face e arruma o cabelo. Chega a ser angustiante acompanhar todo esse ritual. O calvário comportamental do atleta antes de suas ações nas partidas expõe dificuldades e aflições psicológicas que merecem – não é de hoje – a atenção dos especialistas.

Desde muito cedo, Rafael Nadal dedicou todos os seus esforços ao tênis e, ao lado do tio, conselheiro, treinador e empresário, Toni Nadal, trilhou os caminhos da profissionalização e dos inúmeros títulos como tenista.

O esforço, dedicação e doação de Nadal são conhecidos por aqueles que acompanham esse esporte. No dia seguinte à conquista de um título, pela manhã, lá vai Nadal para a quadra, treinar, treinar e treinar. O atleta cresceu na companhia de uma ideologia máxima do esporte praticado e pensado 24 horas por dia, 365 dias por ano em que o descanso representa uma dupla falta diante dos adversários.

Lembro-me de alguns professores que tive no cursinho que diziam: “enquanto você está sonhando, tem sempre outro estudando”. Como esquecer o terror que a gente sentia e até mesmo a culpa de não estudar a quantidade de horas que era sempre insuficiente?

Pois bem. Não quero nem vou colocar na conta do Toni Nadal, esse conjunto de sintomas estranhos que o sobrinho tem demonstrado nas quadras. Até porque, o tio foi um dos principais responsáveis pela carreira vitoriosa desse mega astro do tênis. Questiono, no entanto, essa necessidade mais que imperativa do “ter que ganhar a qualquer preço” – do “ser perfeito sempre” – ou do “ser atleta o tempo inteiro” – das caras e bocas que o tio faz quando Nadal erra ou perde uma partida que, teoricamente, teria todas as possibilidades de vitória. Há sempre uma sensação de débito no ar. Uma espécie de pendência que não tem mais fim.

Fato é que Nadal parece ter perdido muito de sua vitalidade, dos cabelos, da pele e do brilho nos olhos. O guerreiro das quadras está demonstrando dificuldades diante dos golpes do tempo. E aqui pergunto: o que será de Rafa quando abandonar o tênis? Como lidará com essa energia que, na quadra, não é mais a mesma e o aumento progressivo da sintomatologia compulsiva de tiques está aí para denunciar esse desencontro emocional?

O esporte de alto rendimento é lindo, tem o seu glamour e beleza. Por outro lado, se os cuidados no desenvolvimento dos atletas e seres humanos não forem considerados nem trabalhados, há sempre o iminente risco de se represar, perigosamente, a energia vital que necessita de campo e espaço para se manifestar.

Hoje, o cenário para esses evidentes conflitos de Nadal é a quadra – sempre repleta de fãs e admiradores de seu talento e força. Amanhã, quando os holofotes se apagarem, temo – de verdade – sobre como ele lidará com esses nítidos e crescentes sintomas comportamentais que, certamente, indicam a necessidade de apoio e auxílio.

Por hora, o guerreiro corre e luta para voltar ao topo do ranking – como sempre! E a Psicologia do Esporte, infelizmente, ainda sofre com o preconceito e desinformação de atletas e treinadores.

João Ricardo Cozac é psicólogo do esporte, presidente da Associação Paulista da Psicologia do esporte. Diretor clínico da empresa CEPPE (Consultoria, Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte). Membro acadêmico, pesquisador e doutorando do laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP – contatos: [email protected] – www.ceppe.com.br