Psicologia do Esporte ainda é tabu no futebol

futebol antigo


O ingresso das ciências da saúde relacionadas com a preparação esportiva tem sido lento e gradual. Nas décadas de 60 e 70, por exemplo, não existiam os profissionais da Nutrição, Fisiologia e às vezes – até – da preparação física. Eram apenas o treinador e um médico com algum conhecimento em ortopedia. Nada mais.

A comida era o velho e bom feijão preto. A preparação física era realizada pelos treinadores. A Psicologia do Esporte, enquanto ciência, não existia. Simultaneamente, nos Estados Unidos e boa parte da Europa, pesquisas relacionadas com as tendências competitivas de atletas eram realizadas a pleno vapor.

Apenas no final da década de 80 começaram as primeiras pesquisas e publicações sobre a Psicologia Esportiva no Brasil. Várias modalidades contaram – e ainda contam – com o trabalho psicológico e não abrem mão da presença desse profissional na Comissão Técnica. No entanto, o futebol ainda engatinha quando o assunto é a valorização dos aspectos psicológicos dos atletas e das equipes. Creio que há motivos para isso. E não são poucos.

a-) Falta de divulgação da área: poucos são os trabalhos realizados e divulgados que relacionam a Psicologia do Esporte no futebol. Aliás, os psicólogos do esporte precisam começar a divulgar mais a área e de forma correta. Quando tem uma possibilidade de ingressar num clube de futebol, parece que ficam com medo de dar entrevistas. Obviamente que as entrevistas não são para falar sobre as demandas do grupo (claro, seria antiético) , mas sim, explicar pedagogicamente o que é a Psicologia Esportiva e os benefícios que ela gera numa equipe.

b-) Coisificação do ser humano: a banalização dos aspectos humanos dos atletas abre passagem para profissionais de ocasião. Gente que não tem o menor embasamento científico e promete resultados mirabolantes em pouco tempo. Fico impressionado ao constatar que esses trabalhos são considerados como “psicológicos”. Essas aspas, aliás, banalizam cada vez mais o trabalho científico de muitos profissionais que atuam em laboratórios de alto rendimento e perdem oportunidades de trabalho para esse tipo de proposta de atuação – sempre vazias e superficiais.

c-) Falta de discernimento dos dirigentes: sim, amigos. A esperança é que os dirigentes se renovem, mas o que vemos no cenário atual, é desanimador. Filhos e netos de ex-jogadores e ex-dirigentes repetem as concepções atrasadas de atleta e a falta (ausência) de valorização da ação dos aspectos emocionais e psicológicos dos atletas. Conclusão: equipes às vezes muito bem treinadas e condicionadas perdem para as próprias fragilidades psicoemocionais. Será que é tão difícil assim perceber que existe uma ciência que já conta com pelo menos trinta anos de estudos e pesquisas e que é capaz de auxiliar as equipes de forma individual e coletiva, com recursos modernos e atualizados?

d-) A imprensa esportiva precisa – urgentemente – se atualizar : pergunte a um jornalista esportivo se ele sabe o que faz um psicólogo do esporte. Salvo raras exceções (tenho, inclusive, um jornalista esportivo como aluno na turma do curso de formação em Psicologia do Esporte que ministro) – a maioria confunde a área com shows pirotécnicos, palestras de atores e comediantes com o trabalho de motivação. Não se pode motivar, de forma apropriada, sem conhecer minimamente o plano de demandas de uma equipe. Para isso, é preciso tempo. Ou seja, tudo aquilo que boa parte dos dirigentes não quer ouvir: “é preciso investir na qualidade dos trabalhos psicológicos, considerando-nos nos moldes de um departamento que atua de forma multi e interdisciplinar” – ou seja: médico conversa com o psicólogo que troca ideias com o preparador físico que se reúne com o treinador e assim por diante.

O ser humano não pode ser concebido de forma tão cartesiana em pleno século XXI. Já se sabe, inclusive, que muitos dos sintomas físicos tem relações com causas emocionais. As repercussões de sintomas e fragilidades emocionais podem, dependendo do grau de manifestação, prejudicar as habilidades motoras, causando uma perda importante de qualidade técnica do atleta.

Na Europa, os grandes clubes contam com departamentos de Psicologia do Esporte desde a categoria mirim, até a profissional. Uma vez por semana, ocorre uma reunião entre todos os psicólogos para a troca de informações e acompanhamento da evolução das equipes. Dessa forma, quando o atleta muda de categoria, o psicólogo que o receberá já terá um importante conjunto de informações sobre o perfil psicológico dele.

Por aqui, temo que o futebol ainda irá sofrer bastante até despertar para os benefícios promovidos por trabalhos psicológicos sérios e compromissados com a ética, pesquisa e resultados.

Sabem aquela imagem do cão correndo atrás do próprio rabo?

Pois é.