O narcisismo do voto e a questão da ausência parental

O que se busca, de fato, é a nebulosa tranquilidade interior de que o político eleito esvazie a profusão de instintos e conceitos que aterrorizam a psique social

 *Dr. João Ricardo Cozac

Um amigo antropólogo publicou a seguinte frase numa rede social: “hoje o centro da cidade parecia uma África”. Em poucos minutos recebeu uma enxurrada de mensagens o acusando de “racista” e “preconceituoso”.

O assédio que sofreu com a postagem foi tamanho que precisou removê-la menos de doze horas após a publicação. A intenção, de fato, era aferir as latentes emoções dedutivas que vivem represadas no sempre pronto, atuante e vigilante superego social. Em vez de se imaginar que o centro da cidade estava quente ou densamente povoado, como em alguns países da África, a dedução de que o autor da frase estava praticando o racismo foi a saída mais próxima, emergente e possível.

Essa conduta catalisada por emoções reprimidas sugere, através de uma narrativa saudosista, o surgimento de figuras de autoridade que possam devolver algum tipo de referência diante da iminente dissolução de papéis emblemáticos e hierárquicos de poder. Uma espécie de pedido ou até mesmo “elogio à força armada” enquanto luto(a) de uma virada nas novas conceituações das figuras de poder, como concluiu a psicanalista Maria Homem em vídeo publicado em suas redes sociais.

Será que estamos preparados e somos potencialmente adultos para encarar os novos e irreversíveis modelos de parentalidade e hierarquias sociais? A busca frenética por limites diante da sensação de desamparo na relação entre indivíduo e sociedade está presente nas intermináveis e quase sempre agressivas discussões políticas. Essa alquimia estreita e profunda diante do discurso daquele que me representa pode, enfim, vociferar tudo aquilo que, no silêncio das convicções mais íntimas promove profunda vergonha e consequente repressão.

Essas vozes surgem das irreversíveis transformações nas relações hierárquicas familiares. O insucesso de um(a) filho(a) no colégio é, quase sempre, problema do ensino e da metodologia da escola e jamais da conduta dos pais em casa. A escola é o espaço de projeção dos pais designado para o crescimento, educação e ensino.  A ironia dessa tumultuada equação de (falta) poder é justamente a sensação de orfandade que pais e filhos desenvolveram em suas próprias relações. Aparentemente vivem próximos fisicamente mas convivem quase como estranhos em suas essências.

As figuras de poder social, afetivo, religioso, sistêmico e de tantas outras áreas estão sendo questionadas ou deixadas de lado. O problema central é que o ser humano não conseguiu se reinventar para dar conta das novas demandas e modelos hierárquicos e agora clama por limite. Parece que o contato legítimo e fluente com seus valores, dúvidas, medos e angústias é algo que precisa ser abafado a todo preço e instante. Na prática vivemos na penumbra de tudo o que conseguimos olhar, sem poder, de fato, enxergar.

Diante desse labirinto de desejos não comunicados nem (re)conhecidos, a inevitável busca pela elaboração da angústia gerada pelo estresse existencial se expressa, entre outros, no momento político que vivemos. A expressão narcísica na intenção primordial do voto possivelmente denuncia essa moderna, real e intolerável sensação de ausência de legitimidade e referência dos atos, ideais e contextos de vida. Os laboratórios de marketing político e estudos do comportamento humano tem lapidado a conduta de diversos políticos. E isso ocorre já há algum tempo no cenário nacional e internacional.

Descobrir, formar, criar e desenvolver figuras que atendam as demandas sociais e afetivas de uma determinada população é, sem dúvida, ofício dos mais valorizados nesse universo político. O modelo de poder do(a) político(a) que detém a atenção pública está diretamente associado ao distanciamento das mais variadas formas de se estar no mundo. O preconceito social, cultural, racial e tantos outros nada mais é que a ação representativa dessa desconfortável relação humana com suas diferenças. Para que todo esse conteúdo obtenha vasão, é preciso criar líderes que sejam agentes potenciais da manifestação de tudo aquilo que é impossível de se constatar.

Em 1964, num panorama mais centralizado nos modelos políticos, a “Marcha da família com Deus pela liberdade” foi criada para designar a série de eventos em resposta ao que se considerava a “ameaça comunista” diante das ideias do presidente João Goulart e chegou a mobilizar um milhão de brasileiros. Os grupos envolvidos nessa marcha aceitaram o golpe militar por acreditar que, dessa forma, teriam seus bens garantidos à custa da falta da democracia.

Em 2018, dezenas de milhões de brasileiros brigam em redes sociais, rompem longas amizades e, em alguns casos, chegam a vias de fato para defender as ideias dos políticos que discursam e/ou oferecem alternativas de sobrevivência num país que está imerso numa contundente idiossincrasia jamais registrada por aqui. Nunca se viu tanta agressividade espalhada nos ambientes de interação social.

O que se busca, de fato, é a nebulosa tranquilidade interior de que o político eleito esvazie uma enxurrada de instintos e conceitos que aterrorizam a psique social. Vale frisar que, segundo Freud, as tendências hostis ou antissociais não se originam em um instinto de morte, mas na própria energia da vida. E essa conclusão parece fazer todo sentido na descomunal efervescência política que atravessamos agora.

Dr. João Ricardo Cozac (48) é psicólogo e pós-doutorando em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.