Neymar e os ecos da adolescência 

Será que por cinco minutos é possível esquecer a cor da camisa, o valor mensal recebido e tudo o que esse garoto já fez dentro de campo? Se a resposta for “sim”, continue a ler o texto. Do contrário, infelizmente não conseguiremos um diálogo apropriado.

Fico feliz que tenha optado em seguir a leitura e já adianto que a linha da vida é sábia: infância, pré-adolescência, adolescência, fase adulta e terceira idade (o que passou a ser chamada de “melhor idade”). Pois bem, assim como uma escada de degraus longos e altos, não é possível ultrapassar etapas do desenvolvimento humano. Entretanto, no futebol e em várias modalidades no Brasil, esse processo é mais comum que se imagina.

O caso de Neymar é apenas mais um nessa ditadura que marcha contra os rumos naturais do crescimento de nossos atletas. A matemática, nesse caso, é irrefutável. Quanto mais sucesso, maior a lacuna do autoconhecimento, identidade e, em última análise, a inevitável oscilação de rendimento dentro de campo.

Você que está lendo o texto deve se lembrar da primeira paixão. Não lembra? Cabulava aulas para encontrar a namorada, inventava desculpas para não sair com os amigos, contava os minutos para ter algumas horas com a amada. Pois bem – o caso de Neymar – nas nuances humanas, em nada difere de sua (nossa) experiência. O garoto está apaixonado e isso vai além das redes sociais, fotos de amor e declarações de paixão eterna – está, sim, em seu caminhar, no jeito de olhar, na intempestiva busca do afeto vendido ao futebol e que, agora, encontrou o necessário colo amado da moça pura da novela.

A torcida – no papel quase sempre tirano de superego – cobra atitude e bom futebol do rapaz que está visivelmente cansado e desmotivado para manter o desempenho e a genialidade que o consagraram nos campos da vida.

Neymar cansou, precisa mudar de ares (falo isso há muito tempo), ver o mundo, buscar novas imagens, novos mitos, conhecer um pouco mais suas possibilidades e fragilidades. Sua autoimagem está embaçada e o espelho já não mostra mais um rosto por ele conhecido. A cada jogo aparece com um novo penteado – como se buscasse, freneticamente, a definição para um eu que foi jogado no passado na busca da realização de um sonho.

Como um adolescente (de 25 anos) – Neymar parece procurar um espaço para acertar suas contas afetivas e sociais negociadas com o futebol ao mesmo tempo em que, dentro de campo, alcançou o status de ídolo no futebol brasileiro. Aliás, muito mais que isso: é a grande esperança da Seleção Brasileira no próximo Mundial.

Não é possível – nem humano, esperar que Neymar jogue 100% das partidas no melhor de sua qualidade técnica, tática e, especialmente, comportamental. Visivelmente entediado, o garoto quer mais é correr para o abraço de sua amada. E é bom – e prudente – que isso aconteça logo. Aliás, o quanto antes, melhor. Para Neymar virar gente grande, é vital que tenha um pouco de vida adolescente. Do contrário, vagará pelos campos do mundo (e da vida) – desengonçado emocionalmente, buscando entender, no melhor estilo Clarice Lispector, “em qual espelho perdi minha face”.