Nadal e a Síndrome do Fracasso Neurótico

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O que estaria havendo com Rafael Nadal? A pergunta que já é manchete antiga de jornal – continua cada vez mais atual.

Creio que há uma associação entre fatores físicos, mentais e técnicos que estão causando a desvitalização do tênis do Nadal.

Desde muito cedo, Rafa dedicou todos os seus esforços ao tênis e, ao lado do tio, conselheiro, treinador e empresário, Toni Nadal, trilhou os caminhos da profissionalização e dos inúmeros títulos como tenista.

E era aquela coisa de quadra, quadra e quadra. Sabemos que o tênis de alto rendimento exige cuidados físicos específicos. Por sorte, hoje, a liberação miofascial, noção de força associada à mobilidade, trabalhos específicos de quadril, ombro, lombar e joelho ganham maior atenção do que os famosos “aparelhos de ginástica”.

Será que Nadal teve, ao lado do Tio, o apoio na preparação física dentro desse conceito moderno de que mais vale um tenista ágil, flexível, com as articulações fortalecidas – do que ficar puxando ferro?

Hoje, vejo Nadal bem mais fraco – aparentemente – do que 6 ou 7 anos atrás. O que terá acontecido com sua preparação física? Será que ele se atualizou? Essa é a primeira questão.

Por outro lado, o esforço, dedicação e doação de Nadal são conhecidos por aqueles que acompanham esse esporte. No dia seguinte à conquista de um título, pela manhã, lá vai Nadal para a quadra, treinar, treinar e treinar. O atleta cresceu na companhia de uma ideologia máxima do esporte praticado e pensado 24 horas por dia, 365 dias por ano em que o descanso representa uma dupla falta diante dos adversários.

Lembro-me de alguns professores que tive no cursinho que diziam: “enquanto você está “cantando” (fui educado aqui – o termo que ele usava era outros – rs) , tem sempre outro estudando”. Como esquecer o terror que a gente sentia e até mesmo a culpa de não estudar a quantidade de horas que era sempre insuficiente?

Pois bem. Não quero nem vou colocar na conta do Toni Nadal, esse conjunto de sintomas estranhos que o sobrinho tem demonstrado nas quadras. Até porque, o tio foi um dos principais responsáveis pela carreira vitoriosa dele no tênis.

Questiono, no entanto, essa necessidade mais que imperativa do “ter que ganhar a qualquer preço” – do “ser perfeito sempre” – ou do “ser atleta o tempo inteiro” – das caras e bocas que o tio faz quando Nadal erra ou perde uma partida que, teoricamente, teria todas as possibilidades de vitória.

Há sempre uma sensação de débito no ar. Uma espécie de pendência que não tem mais fim.

Fato é que Nadal parece ter perdido muito de sua vitalidade, dos cabelos, da pele e do brilho nos olhos. O guerreiro das quadras está demonstrando dificuldades diante dos golpes do tempo. E, diante das possibilidades que a preparação esportiva oferece hoje em dia, ele deveria estar no auge de sua forma.

O esporte de alto rendimento é lindo, tem o seu glamour e beleza. Por outro lado, se os cuidados no desenvolvimento dos atletas e seres humanos não forem considerados nem trabalhados, há sempre o iminente risco de se represar, perigosamente, a energia vital que necessita de campo e espaço para se manifestar.

Tenho a nítida sensação de que Nadal está precisando de uma reciclagem. Só que, por outro lado, receio que ele nem sonhe com essa possibilidade. Reciclagem na preparação física e técnica – e, como fez Djoko (acompanhem o link abaixo, ao final desse post) – ter um psicólogo do esporte que possa ajudar nas questões emocionais e psicológicas.

Temo também pelo lado humano de Nadal. Muita já foi dito sobre seus tiques.
Nervosos ou não, expõem uma energia que me parece represada e sem caminho para escoar. Isso tudo, obviamente, gera conflitos.

Na Psicologia do Esporte – falamos numa tal “síndrome do fracasso neurótico”. No senso comum, é aquela coisa de “derrota atrai derrota”.

Fato é que, hoje, o cenário para esses evidentes conflitos de Nadal é a quadra – sempre repleta de fãs e admiradores de seu talento e força. Amanhã, quando os holofotes se apagarem, temo – de verdade – sobre como ele lidará com esses nítidos e crescentes sintomas comportamentais que, certamente, indicam a necessidade de apoio e auxílio.

Por hora, o guerreiro corre e luta para voltar ao topo do ranking – como sempre! E a Psicologia do Esporte, infelizmente, ainda sofre com o preconceito e desinformação de atletas e treinadores.

O que já li sobre as declarações de Nadal sobre a Psicologia – é puramente que ele entende ser um assunto privado. E ponto final. Não creio que ele tenha acesso, por hora, a profissionais da Psicologia do Esporte – como boa parte dos tenistas já o fazem.

Um psicólogo esportivo não seria (e nem poderia ser) a “salvação” para todas as dificuldades de Nadal, mas sem dúvida que – se ele estiver aberto e desejando operar mudanças – gerar renovações no seu plano de jogo, gerenciamento da energia interna – utilização de todo potencial e desejo de vitória, um trabalho psicológico cairia muito bem a ele.

Aqui, convido a todos a conhecer o trabalho psicológico realizado pelo Djoko. Ele, sim, deu uma reviravolta na hora que precisava – uma espécie de sprint do corredor.

Correu tanto e tão rápido – que despareceu à frente de todos.