Kobe Bryant e o resgate do sentido do esporte

Texto4


Nos últimos dois anos, passei a acompanhar a NBA mais de perto e me admirar com a organização e profissionalismo daqueles que participam do maior espetáculo do basquete mundial.

Até porque, o futebol brasileiro anda muito chato, desinteressante e caminha de mal a pior – tanto na administração, como na concepção de esporte, atleta e ser humano: algo que sobra na NBA. Em vez de desligar a televisão, resolvi procurar esporte de verdade. E achei !

Nas últimas semanas, o jogador Kobe Bryant (L.A. Lakers) – um dos maiores ícones de todos os tempos no basquete americano está se despedindo das quadras. Ao final de cada jogo dos Lakers, torcedores locais e adversários erguem faixas de agradecimentos a Kobe e todos os jogadores fazem questão de dar um abraço de despedida nesse grande ícone do esporte.

Ontem, na partida contra o Cleveland, um cartaz me chamou a atenção. Nele estava escrito: “Obrigado, Kobe. Jogo basquete por sua causa”. Após um longo abraço no amigo Lebron James, Kobe agradeceu a (mais essa) homenagem e despedida protagonizada pelos torcedores do Cleveland. Uma ação de pura dignidade e reconhecimento.

Kobe Bryant é um grande exemplo dentro e fora das quadras. E quem conhece e acompanha esse esporte, reconhece seu talento esportivo e humano. Kobe construiu uma carreira vencedora e conquistou fãs de todo o mundo.

A construção e reverência aos grandes ídolos é algo que deixou de existir no Brasil. A última homenagem que me recordo foi a despedida do Zico dos gramados – nas palavras do jornalista Sergio Cabral – do jornal “O Globo”. “”Adeus, Zico. Nós vascaínos, tricolores, botafoguenses etc., dormiremos mais tranquilos sabendo que uma falta cometida nas proximidades de nossa área não será tão perigosa assim. Que não teremos de enfrentar os seus dribles, seus lançamentos, suas soluções inteligentíssimas para as jogadas mais difíceis, a sua movimentação que o levava, em frações de segundo, da intermediária à porta do gol e aos gritos de ‘Zico!Zico!Zico!’ quando você fazia uma das suas e chutava aquelas bolas que tocavam na rede e batiam em cheio em nossos corações. Em compensação , nós, que tanto amamos nossos clubes quanto o futebol, estaremos com as nossas tardes de domingo mais pobres. E, aí, veja que ironia, teremos saudades de você.””

Reverenciar um ídolo significa ir muito além das carências de representação social de um povo (e isso, somos campeões) – de comprar camisetas com o rosto do atleta ou fazer cartas com juras de amor e declarações de paixão. É reconhecer o talento, esforço, conquistas, superações e todo legado de contribuições promovido pelo atleta no esporte e fora dele (nisso somos perdedores) .

O Brasil – país do Pelé e do Ayrton Senna – parece não ter mais espaço para novos ídolos. Até porque, espera-se de um ídolo, comportamentos bem diferentes dos apresentados pelo ícones que surgiram recentemente no cenário esportivo brasileiro. Especialmente nas declarações e comportamentos fora das lentes esportivas.

Até algo mudar por aqui (e vai demorar), vamos aprender com quem sabe reconhecer e valorizar as conquistas e, especialmente, a responsabilidade social que um ídolo deve exercer.

Quem estiver entediado com o futebol brasileiro (cada vez mais atrasado, amador – no pior sentido – recheado de escândalos e gente pessimamente preparada) e procura ações esportivas legítimas, éticas e profissionais, não deixem de assistir os jogos do Lakers e das demais grandes equipes da NBA.

Dessa forma, poderemos enxergar mais de perto, quão longe estamos da essência pura do significado de fazer esporte e, quem sabe assim, possamos aprender um pouco sobre o real sentido dessa prática.

Nos vemos, então, na próxima despedida de Kobe.

João Ricardo Cozac, psicólogo do esporte, presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte. Membro pesquisador e doutorando pelo laboratório de Psicossociologia do Esporte da USP.

Contatos: www.ceppe.com.br / [email protected]