Formação de jogadores no padrão FIFA : ilusão ou realidade?

ddddd

Por João Ricardo Cozac
Especial para o jornal “A Gazeta Esportiva”
Blog: “Gol de Cabeça”

O pênalti perdido pelo jogador do Corinthians, Matheus Pereira, após frustrada tentativa de “cavadinha” na decisão contra o Flamengo reabre uma discussão que jamais deveria se fechar: a formação da identidade dos jogadores de futebol no Brasil.

Li atentamente o texto do colega Cosme Rímoli sobre o ocorrido. O jornalista apontou que “esse é um dos grandes erros na base do futebol desse país. E que corrói personalidades. Produz geração de jogadores mimados, arrogantes, egocêntricos, especialistas em selfies e fugir de assuntos pertinentes. Atletas que perdem mais tempo em esticar o cabelo do que aprimorar faltas e pênaltis. Narcisistas descontrolados. Alienados, não querem saber de brigar por calendário, torneios racionais. Se calam ou fazem graça diante do racismo, da intolerância religiosa, fingem não ver a corrupção. Não têm o mínimo de cidadania. No máximo, orientados por contadores, montam institutos para ajudar crianças carentes. E desfrutam do incentivo fiscal destas instituições”, completou o jornalista.

Entendo que exista uma extrema falta de responsabilidade desses meninos. Por outro lado, como cobrar algo quando não se ensina? Será que a própria constituição atual do futebol também não contribui para a geração desse espetáculo circense de câmeras, luzes, brincos e figurinos? É a “geração Fifa do vídeo game”. Basta apertar o botão do “reset” e começar um novo jogo.

Entre as décadas de 60 e 80, o futebol era concebido de uma maneira diametralmente oposta à de hoje. As camisas tinham apenas o escudo dos times e da fábrica dos uniformes. Lutava-se, em campo, pela honra da instituição. Os salários – que não eram astronômicos como os de hoje – serviam para ajudar na compra de uma casa. Hoje em dia, jogador mora de aluguel, mas não deixa de ter um carro importado para impressionar as Marias-chuteiras. Eu mesmo já soube de casos de jogadores que deixam de pagar a escola dos filhos para ostentar carros de marca.

Mas, afinal, o que teria mudado de lá para cá?

Certamente a dinastia do futebol-empresa, a Lei Pelé e outras ações econômicas e publicitárias que mudaram o futebol em sua estrutura mais legítima – coisificaram o (bom) senso humano de suas ações. As cifras finalmente venceram o poder de se doar a uma causa esportiva e profissional. Até porque, os clubes que, antes tinham plena contundência em termos de significado, hoje não passam de instituições mercadológicas que só visam o lucro. Nada mais que isso. Não lhes parece “normal” que essas empresas formem atletas dentro da mesma filosofia?

Fato é que o futebol perdeu a graça. E não é de hoje. “Cavadinhas” à parte, Matheus Pereira terá sua carreira inabalada. Assim como Alexandre Pato – que teve seu retorno “vetado” pela maioria dos jogadores do Corinthians – por conta da perda daquela penalidade na Copa do Brasil em 2013, contra o Grêmio, após tentar a “cavadinha” e errar. Hoje, Pato é jogador do Chelsea e vai ganhar uma cachoeira de dinheiro. O pênalti perdido é coisa do passado. Papo de botequim.

E aqui, não entendo que caiba um julgamento com punição ou absolvição. Até porque isso exigiria uma releitura completa do futebol – e não apenas do erro capital desses meninos que, com 17 ou 18 anos, tem a plena convicção que são (ou em breve, serão) adultos milionários que não ligam a mínima para a cor da camisa que representam. Basta pagar bem e em dia. Só isso.

E aí, o que um dia já foi amor – hoje virou uma espécie de prostituição (em estágio avançado) de todos os princípios e fatores que desempenham papel fundamental na constituição de uma equipe e de um atleta.

A “cavadinha”, amigos, é apenas a ponta do icebeg . . .

João Ricardo Cozac é psicólogo do esporte – presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte. Membro acadêmico da Sociedade Sul americana de Psicologia do Esporte. Autor do livro “Psicologia do Esporte: atleta e ser humano em ação” (Roca, 2013) . Doutorando e pesquisador do laboratório de psicossociologia do esporte da USP. Atende atletas de diversas modalidades e categorias em clínica. Contatos –www.ceppe.com.br e [email protected]