Quando o futebol e o mundo corporativo se encontram - Revista Canal Rh
      João Ricardo Cozac, psicólogo.


   
   
   
quarta-feira, 15 de julho de 2009


por Lucas Toyama

Um treino de futebol e o escritório de uma empresa têm muito em comum. Basta um olhar um tanto mais aprofundado e se percebe que em ambas as cenas há seres humanos com os mesmos objetivos (em tese). Dependentes uns dos outros. Eles precisam se ajudar para apresentarem melhores resultados individuais e atingirem os objetivos coletivos. Brigam. Muitas vezes, boicotam-se. Estabelecem relações de poder, que acabam por resultar em selvageria. Foi por conta dessas semelhanças que o psicólogo João Ricardo Cozac, após 17 anos atuando com psicologia esportiva, decidiu estabelecer o diálogo entre esses mundos. Criou o Leap, metodologia que empresta às organizações ferramentas utilizadas no campo esportivo.

O principal diferencial do Leap reside no fato de medir características como ansiedade, angústia, tensão, fadiga de maneira mais sistemática e aprofundada. E, diga-se, um serviço muito bem-vindo num universo que sofre com essas mazelas, mas, muitas vezes, prefere ignorá-las. Outro ponto relevante contemplado é o relacionamento entre grupos, assunto tão alardeado por cartilhas organizacionais, mas que, na prática, não raro acaba negligenciado.

Acompanhe os principais trechos da entrevista que o psicólogo concedeu ao CanalRh, em que ele fala do métodos, as dificuldades de implantá-lo, as semelhanças entre esportistas e executivos e na qual também comenta a situação das “estrelas”, figuras presentes nos campos e nas baias e que vão de heróis a vilões num piscar de olhos. Confira.

CanalRh: Como a psicologia do esporte pode auxiliar executivos?

João Ricardo Cozac: Nos dois mundos, a estrutura hierárquica é muito semelhante. O comportamento de muitos atletas é semelhante ao dos executivos. O esporte possui um universo de ferramentas de mapeamento muito rico, alicerçadas no sentimento de equipe e que trazem diferenciais de análise do comportamento do ser humano.

CanalRh: Qual o fundamento principal que permeia o Leap?

Cozac: O método parte do pressuposto de que as pessoas são o capital mais importante das empresas e, por isso, valorizá-las e entendê-las para suprir suas necessidades são atividades vitais para a saúde dos negócios.

CanalRh: Com o Leap, como se dá esse “entendimento” em relação às pessoas?

Cozac: Primeiro, mapeamos demandas motivacionais e sociais dos colaboradores. Trata-se de fatores psico emocionais -- como ansiedade, tensão, depressão, fadiga, vigor – que, ao contrário do que acontece no campo esportivo, normalmente não são mapeados por programas comuns do universo organizacional. Após essa compreensão mais ampla do ser humano, com o diagnóstico pautado nas emoções, o programa atua com atividades que também são similares às utilizadas em equipes esportivas, como palestras, orientação individual, dinâmicas.

CanalRh: O flerte entre os mundos esportivo e organizacional já existe há algum tempo, com as palestras ministradas por profissionais como o técnico de vôlei Bernardinho. Seu trabalho atua nesse sentido?

Cozac: Não. Um dos pilares do Leap é justamente a sustentabilidade de resultados, por meio de um trabalho mais prolongado. Não é simplesmente uma palestra. Trata-se da sustentabilidade comportamental focada nas ferramentas da psicologia esportiva e adaptada ao mundo corporativo.

CanalRh: Como se dá essa adaptação?

Cozac: Utilizamos três inventários, todos eles advindos da psicologia esportiva. O Poms(Profile of the Mood States, algo como “perfil do estado de humor”, em inglês) levanta o perfil psicológico do atleta. Ele traduz, analisa e quantifica como está o indivíduo em termo de depressão, fadiga, vigor, raiva, tensão e confusão. Não se trata de uma análise pontual, de momento, mas sim do levantamento de um comportamento padrão de cada pessoa. O segundo, o Idate (Inventário da Ansiedade – Estado), identifica o perfil relacionado à quantificação de ansiedade de cada analisado em determinado momento. Por fim, a Sociometria avalia as características das relações sociais das equipes.

CanalRh: Esse último identifica quem gosta de quem, ou quem é prejudicial para o grupo?

Cozac: Não apenas, mas também. Esse inventário mapeia quem são as pessoas que recebem mais confiança, quais têm mais responsabilidades e por que, e quais são excluídas da equipe. Além disso, é possível detectar as lideranças latentes que estão sendo mal aproveitadas.

CanalRh: Qual é a principal demanda de quem te procura?

Cozac: Normalmente é dissociação da comunicação entre diretores e líderes e entre líderes e liderados. Existe uma dificuldade enorme com canais, uso abusivo de internet e intranet, o que limita a comunicação. Com isso, criam-se chiados, tornando o ambiente instável. Outro ponto são equipes com baixas escalas sociométricas, ou seja, grupo com pouca interação e integração. Isso vem da pouca união entre as lideranças, que olham apenas para o próprio umbigo. A altíssima incidência de ansiedade e tensão também é real, devido às altas doses de pressão e às demissões frequentes num momento de crise.

CanalRh: Como reverter esse quadro doentio?

Cozac: Na prática, é recomendável fazer um trabalho integrado entre os níveis da organização. Na medida do possível, mantendo-os informados dos esforços conjuntos. Incentivar a criatividade, e estimular a capacidade de superação. E a união de esforços, por meio do coaching com o gestor, que geralmente também está desesperado. A grande saída é promover trabalhos de equipes em que percebam que o problema do outro é seu também e que as conquistas são de todos.

CanalRh: A competitividade do esporte não pode ser prejudicial ao aspecto cooperativo das equipes dos escritórios?

Cozac: Hoje em dia, a competitividade do mercado é um dos principais fatores para a sobrevivência das empresas. É até importante estimulá-la, desde que pautada na ética e no compromisso.

CanalRh: Nos esportes coletivos, não raro um time depende de uma “estrela” e joga em função dela. O mesmo acontece no mundo corporativo. Como administrar essas estrelas, de forma a minimizar problemas de relacionamento internos?

Cozac: Uma única forma de resolução é promover dinâmicas de integração entre as estrelas e o restante da equipe. É preciso que todos saibam que um não vive sem o outro. Transformar a estrela num exemplo de produtividade, mostrar por que ela chegou lá. O segredo é incentivar pelo exemplo, e não destruir o grupo. Eu vejo muito nas empresas, pessoas mais velhas, referências, que são respeitadas e reverenciadas por todos. Então, é recomendável utilizar essas pessoas, suas experiências, com exercícios de grupo, com orientação individual, promovendo um contágio positivo baseado na humanização.

CanalRh: Os atletas precisam estar com o melhor rendimento nas finais dos campeonatos. Os executivos enfrentam finais de campeonato diariamente. Como lidar com essa diferença entre esses universos?

Cozac: Nos escritórios, o acompanhamento tem que ser mais próximo, diário. Não tem jeito. Matar um leão por dia é desgastante. Por isso um trabalho perene é imprescindível. No esporte, podemos fazer uma planilha no começo do ano, programando os treinamentos de forma a coincidirmos o maior rendimento com as finais do campeonato.

CanalRh: Qual esporte mais indicado para traçar paralelo com o mundo corporativo?

Cozac: Na verdade, todos os esportes coletivos guardam em si características muito semelhantes. Mas no Brasil, a referência acaba sendo sempre o futebol mesmo, dada a sua importância cultural por aqui.

CanalRh: Os esportes individuais também guardam ensinamentos?

Cozac: Sim. As contribuições giram em torno de atributos como foco, concentração e atenção.