Ser humano e ser atleta
Escrito por João Ricardo Cozac   
Sex, 26 de Setembro de 2008
 

Amigos, a discussão do lado humano dos atletas parece ganhar cada vez mais importância nos meios de divulgação esportiva. Treinadores, rotineiramente, explicam que as equipes sentiram a pressão psicológica e tiveram o desempenho afetado por conta da ansiedade. Os discursos andam bem ensaiados pelos comandantes da bola. Na prática, a coisa é um pouco diferente.

Futebol empresa ou capital humano?

Os dois juntos, certamente. Afinal, os jogadores são os que produzem e levam o capital aos cofres dos clubes. Trabalhar e desenvolver o lado humano dos atletas é o mesmo que investir financeiramente nas equipes. É impossível separar o lado pessoal do profissional cem por cento do tempo. Uma hora, as fragilidades internas e demandas afetivas e emocionais tomarão também o corpo físico de nossos heróis.

Psicologia Esportiva ainda é sinônimo de preconceito

Por mais que os dirigentes esportivos reconheçam a falta de um trabalho psicológico com equipes de diversas modalidades, a situação permanece inalterada. O Brasil já conta com ótimos profissionais . O problema é a falta de valorização desta importante área da preparação esportiva pela maioria dos técnicos, atletas e cartolas. Perdemos medalhas, grandes talentos para o exterior e, claro, muito de nossa autoestima.

Na falta da Psicologia Esportiva

Padres, Pais de Santo, palestrantes motivacionais, engenheiros, administradores, economistas, ex-astros do nosso esporte e profissionais de áreas distantes desempenham o papel de psicólogos nos clubes. Talvez seja o momento de abolir a palavra Psicologia dos projetos de intervenção e adotar outros termos menos amedrontadores aos olhos e ouvidos daqueles que, a principio, ali estão para zelar pelo bem-estar e bom rendimento dos atletas. Falar em Psicologia ainda assusta muita gente. Acreditem: tem time por aí que não pode ouvir falar neste assunto. Eles acham que a presença de psicólogos poderá denunciar uma crise interna e deporá contra a imagem do clube. Que estranha relação, não acham?

Futebol: o mundo das relações causais

Por falar em relações estranhas, vocês já notaram como as pessoas do mundo futebolístico resolvem com extrema rapidez algumas questões que, a princípio não são assim tão simples? Vamos a algumas delas: o time perde, a culpa é do treinador, sempre. O novo técnico chega e solicita um trabalho psicológico ao diretor de futebol. O cartola, por sua vez, diz para esperar mais um pouco, afinal, não podemos precipitar as coisas. As derrotas insistem a ocorrer e o time não sai daquela inércia quase desesperadora. O que acontece? O técnico é demitido e, desta vez, os dirigentes exigem a presença de um psicólogo para ajudar. Finalmente, chega a primeira vitória e, claro, não há mais a necessidade de se desenvolver o trabalho psicológico. Afinal, o time agora subirá para a ponta da tabela e este negócio de psicólogo é bobagem. De relações causais em equações de profunda ignorância, nosso futebol amarga um de seus piores momentos da história. O ser humano, dentro dos clubes, pede passagem. Enquanto os dirigentes não perceberem que os atletas devem ser formados com mais seriedade, proximidade, auxílio e empenho, continuaremos a presenciar o aparecimento de jogadores musculosos e com estrutura física de aço fincados em  bases de barro, daquelas bem molengas que não ficarão em pé ao primeiro sinal de ventania.