 | | São Paulo (SP) - A necessidade de afeto é inerente ao ser humano. Todos nós precisamos amar e ser amados, porque a contagem do ser humano começa em dois. Não viemos ao mundo para uma vida solitária. A construção deste afeto começa ainda na infância, através da atuação e dos cuidados paternos. É a primeira estação que o trem deve parar na busca do crescimento saudável e da estruturação emocional e psicológica do indivíduo. |
A ausência do afeto no período da construção da personalidade e do ego pode deixar um legado corrosivo e perigoso na seqüência da vida destas crianças. No caso dos jogadores de futebol, este é um fato corriqueiro. A grande maioria, de origem humilde, não teve a oportunidade de conviver com os pais, ficando privada deste pilar tão importante da sociabilização e contato saudável com o mundo.
Quando estão nas equipes de base, estes jovens atletas convivem diariamente com o fantasma da solidão. Dedicam a totalidade do tempo para incrementar a técnica e o físico em uma fuga voraz das imagens recorrentes da infância. A esfera psicológica e emocional é abandonada. No fundo, eles sentem e alguns até têm consciência desta lacuna afetiva não preenchida num passado difícil de ser abordado.
Quando chegam à equipe principal, buscam, a todo custo, satisfazer a necessidade do afeto, já que estão aptos financeiramente a assumir um compromisso amoroso.
A urgência em completar este espaço faz com que muitos jogadores se casem com pessoas que trazem histórias de vida semelhantes. Ora, amigos, vazio com vazio jamais formará um corpo cheio. Pelo contrário: a sensação de solidão aumentará e o novo jogador de sucesso olhará para os lados, dando seqüência à sua interminável busca de afeto e conforto emocional.
A ausência de trabalhos de preparação psicológica, social e emocional nas equipes de base vulnerabiliza ainda mais a formação humana daqueles que serão os patrimônios dos clubes em um futuro próximo.
É bastante comum o jogador se casar aos 19 ou 20 anos de idade, em geral, período em que são promovidos às equipes principais. Logo têm filhos e constituem família. A sensação é a de voltar no tempo e tentar construir tudo aquilo que não tiveram a oportunidade de vivenciar.
No entanto, a lógica do “repetir, recordar e elaborar” é implacável. Casamentos fracassados, exposições cruéis na mídia, sofrimento e angústia costumam ser o caminho mais provável nestas tentativas frenéticas de resgate dos tempos difíceis de solidão e isolamento afetivo.
Friso novamente a total falta de senso humano com que os jogadores são tratados dentro desta nova filosofia do futebol empresa. Os dirigentes nem sonham com a possibilidade de fornecer auxílio a esta molecada enquanto é tempo. Os grandes astros, com corpos formados por aço e hormônios, guardam, em suas tenras intimidades, bases constituídas sobre pilares pouco resistentes.
Mestre Machado de Assis já dizia que “o mercado dos desejos expões seus mais tristes tesouros”. Vamos pensar sobre isso?
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