Futebol: quem te viu, quem te vê
Escrito por João Ricardo Cozac   
Seg, 21 de Julho de 2008
 Meu amor pelo futebol começou aos cinco anos de idade. Naquela época, jogava futebol de rua com os amigos e, à noite, armava o Estrelão para jogar botão. O tempo foi passando e as várias formas de atividades futebolísticas surgiam no tapete de casa, no portão do vizinho, no quintal com meu irmão e os queridos amigos de uma infância eternamente presente. Cada um representava uma equipe. As horas passavam como num toque de mágica. Pena não haver um refletor para iluminar o nosso 'campo'. Presenciamos um futebol repleto de gênios. Vimos o Santos de Nilton Batata, Pita e João Paulo. Serginho Chulapa, com a nove desbotada do São Paulo colocava o goleiro com bola e tudo para dentro do gol.

Vimos Basílio por um ponto final ao jejum de títulos, promovendo uma das maiores festas da nação corintiana. Acompanhamos o Palmeiras de Jorge Mendonça, César Maluco e Leão. Presenciamos a angústia da espera de títulos e a chegada do futebol-empresa. A Parmalat inaugurou, no Palestra, o ciclo das grandes potências futebolísticas. O Palmeiras saiu da fila dando espetáculo. Mestre Telê Santana, com sua mística camisa laranja era ovacionado pela torcida tricolor. A democracia corintiana, irreverente e vitoriosa, mostrou ao mundo que os jogadores têm valores humanos que devem ser respeitados. Vimos Geovani implodir o Fluminense numa das tarefas mais impossíveis do esquadrão santista. Posteriormente, o mesmo Santos foi assaltado diante do Botafogo. As imagens e os tira-teimas existem para comprovar. Vimos o Morumbi unido para torcer pela querida Lusa naquela decisão do Brasileirão contra o Grêmio. E os inúmeros gols marcados pelo Roberto Dinamite contra o Corinthians no Maracanã? A cobrança de falta perfeita do Zico contra o Santa Cruz .

Aquela bola acariciou o ar até abraçar as redes do time pernambucano.

Juntos, nos emocionamos com aquela Seleção de 82, com Sócrates, Falcão, Zico, Leandro, Éder, Junior e tantos outros craques. Choramos com os gols de Paolo Rossi na Copa da Espanha e com a goleada da Argentina diante do Peru na Copa de 78, num dos maiores fiascos da história do futebol. Os jogadores eram exemplos de talento e conduta. As camisas dos clubes abrigavam apenas o escudo solitário dos times. Lembro do XV de Jaú. Vi a Ferroviária de Araraquara jogando como time grande. Estive no estádio Santa Cruz, em Ribeirão Preto, acompanhando, estático, um 'Come-Fogo' de arrepiar. E o Novorizontino? Puxa, que saudades! Meus pais deixavam que eu fosse ao campo com meu irmão. Eles nos buscavam ao final das partidas. Não vi bombas, tiros nem corre-corre de torcidas. O futebol, amigos, era uma tormenta de encantos.

Quem te vê
Passados mais de 35 anos, a realidade é bem diferente. Hoje em dia, as manchetes dos programas de futebol mais se assemelham com anúncios fúnebres ou páginas policiais (o caderno de Economia também já cede sua páginas às milionárias transações). Já perdi a conta das mortes de torcedores nos arredores das praças esportivas. A camisa dos clubes parece fantasia de carnaval. E, mesmo assim, os times estão quebrados financeiramente. O nível técnico dos times caiu vertiginosamente.

Confesso que tem sido tarefa árdua acompanhar uma partida de futebol sem bocejar pelo menos dez vezes. Certamente, poucos pais permitem que seus filhos vão aos estádios de futebol sozinhos. Aliás, nem acompanhados tem sido recomendável. O futebol está morrendo em cena aberta. Pede socorro a cada nova rodada. Os grandes clubes, há tempos, lutam para não cair.

Psicólogos são tratados como gado no mundo da bola. Outro dia fiquei sabendo de um colega que foi chamado para um trabalho voluntário num grande clube. Ao questionar o nobre dirigente sobre a voluntariedade de seu trabalho, recebeu a seguinte resposta: 'Psicólogo no futebol é como São Tomé: é ver para crer'. O futebol está nas mãos de pessoas despreparadas. Virou terra de ninguém. Jogador beija escudo do Grêmio e, pouco tempo depois, faz juras de amor ao Inter. O mesmo acontece entre Flamengo e Fluminense, São Paulo e Corinthians, Atlético e Cruzeiro e tantos outros rivais. Os ídolos do presente não servem mais de exemplo para a garotada. Os holofotes estão se apagando. No tique-taque do tempo, a força de uma paixão perde o sentido e a verdade de outrora.

Sinais dos tempos? Não sei. Melhor, talvez, seja jogar vídeo game. Lá ninguém morre e sai cada golaço!
Última atualização ( Qua, 10 de Setembro de 2008 )