Vigorexia e a doença nas academias de ginástica
Escrito por João Ricardo Cozac   
Dom, 27 de Julho de 2008
 São Paulo (SP) - Esporte é saúde, mas, como tudo que é feito em excesso, também a atividade física poder ser prejudicial. A obsessão pela boa forma pode gerar riscos para a saúde psíquica e física. A princípio, freqüentar uma academia significa estar em contato com outras pessoas. Entretanto, existem aqueles que - presos à sua imagem no espelho - nem se dão conta de quem está à sua volta. O “ginastocólatra” (certamente você deve conhecer alguém assim – patologia definida como “vigorexia”) intensifica e estimula uma auto-idolatria que rompe os limites do aceitável.

Cuidar-se, de maneira adequada, significa zelo por si próprio. Se isso passa dos índices saudáveis, esta atividade acaba gerando um vício que se transforma no aspecto psicopatológico do exercício. O indivíduo passa a querer sempre mais. Muito parecido com o mecanismo de uma droga, ele lutará com todas as suas forças para perder um quilo que julga estar sobrando em seu corpo. Este “quilo a mais” assume uma importância desproporcional e o esforço para conseguir mais 1 cm de bíceps ou tríceps se transforma em uma “luta armada” em que o atleta não poupará esforços nem danos físicos para conseguir vencê-la. Alguns acabam ingerindo esteróides-anabolizantes para atingir o ideal do crescimento físico sem tanto esforço.

O corpo humano tem seus limites individuais. Quando o atleta atinge este limite e quer crescer ainda mais, recorrerá, em alguns casos, ao uso de substâncias nocivas ao corpo no intuito de satisfazer o impulso narcísico que o domina. Os benefícios de uma atividade física regular e disciplinada são inegáveis. Mas é importante ficar atento quanto aos abusos. A ingestão de água, por exemplo, ao longo do dia, é bastante saudável desde o momento em que a quantidade ingerida esteja de acordo com as necessidades biológicas individuais. Ingerir uma quantidade de água muito superior àquelas que o corpo necessita, acaba desequilibrando o funcionamento do organismo. Com o esporte é a mesma coisa.

A conseqüência mais grave para a vida dos “ginastocólatras” pode ser o desenvolvimento de patologias sociais graves. Viver diante do espelho é limitador, na medida em que fragiliza e vulnerabiliza a personalidade.

Em casos assim, as manifestações psicológicas mais comuns são a síndrome do pânico (profundo medo de interagir socialmente); a depressão ou falta de energia vital; distúrbios graves de personalidade como o “TOC” (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e outros mecanismos da mente causados por um desvio que, inconscientemente, traz embutida a intenção de atrair pessoas, mas é vazio enquanto conteúdo. Em alguns casos, o indivíduo julga-se tão acima do bem e do mal que não consegue estabelecer relações sociais saudáveis nem mesmo dentro do próprio meio social, a academia. E o resultado pode ser um grave estado de solidão e melancolia.

O apelo pela beleza exterior é bastante forte. Nas revistas, na publicidade e nos comerciais de televisão só o que vemos sãos corpos perfeitos em suas formas. A sexualidade e sensualidade são muito exploradas pela mídia em geral, que a condiciona à perfeição de medidas.

Para atingir o corpo desejado, pessoas de todo o planeta desenvolvem psicopatologias igualmente graves, tais como a bulimia e/ou anorexia. Os padrões considerados adequados, e sempre reforçados no mundo externo, é tão forte que acaba dominando e manipulando as defesas psicológicas, proporcionando o surgimento de graves doenças somáticas.

A vulnerabilidade psicológica pode (e deve) ser fortificada através de um processo psicoterapeutico. A questão básica está na necessidade do reconhecimento de que algo não vai bem. Para a grande maioria, a mola propulsora é a fantasia de que – para ser aceito e admirado – são necessárias medidas ideais. Este mecanismo já é reflexo de um fenômeno social de carência e isolacionismo ligado a problemas de relacionamento e expectativas sociais.

De fato, o corpo humano é o nosso grande cartão de visitas. Entretanto, os limites psico-fisio-biológicos devem ser respeitados para que uma atividade que, por princípio é saudável, não gere sintomas e comportamentos negativos como os constatados nos praticantes compulsivos de exercício físico. Balancear os prazeres (tanto os do paladar quanto os vivenciados após uma atividade física) é o alvo. Além da prática do exercício físico dentro das academias, há outras opções para se condicionar o corpo. Caminhar em parques, por exemplo, oferece momentos de relaxamento que colaboram com o bem-estar físico e mental. Artes marciais e a prática de atividades desportivas também são aconselháveis para os que buscam uma melhor qualidade de vida.
Última atualização ( Qua, 10 de Setembro de 2008 )