Constatações e contradições olímpicas
Escrito por João Ricardo Cozac   
Seg, 25 de Agosto de 2008
São Paulo (SP) - Ao término de mais uma edição dos jogos olímpicos, é preciso fazer uma reflexão sobre alguns temas importantes.

China sem maquiagem

 

O país sede conseguiu camuflar, durante quinze dias, todas as suas diferenças sociais, cerceamento dos veículos de imprensa, liberdade religiosa e, claro, a forma cruel com que cala a opinião pública.

Pequim, amigos, infelizmente não é uma festa. Os chineses fizeram o espetáculo para mostrar sua força ao mundo. Lá dentro, acreditem, a coisa é diferente. A festa foi para os poucos que conseguiram pagar o altíssimo valor dos ingressos. Vocês acham que eles colocaram telões nas ruas? Ledo engano. O elitismo e segregação, por lá, recebem o mesmo valor que as medalhas de ouro conquistadas pelos atletas.


Duas senhoras foram presas porque solicitaram um espaço na cidade para realizar uma reivindicação. Pior: os políticos chineses pedem para o mundo lembrar apenas dos lindos momentos do evento. Esqueçamos todos o problema do Tibet. O que vale, mesmo, são os fogos artificiais que ofuscam nossas visões.

A Olimpíada da Psicologia (ou da falta dela)

Não vou citar os intermináveis casos de atletas e equipes brasileiras que perderam as medalhas por conta do despreparo psicológico e emocional. Até porque, necessitaria de três colunas em vez de uma. No entanto, Nuznam afirmou que trabalhará com uma equipe de psicólogos para o próximo ciclo. Será discurso eleitoreiro? Confesso que eu só acredito, vendo.

A cada final de jogos olímpicos é sempre a mesma ladainha: perdemos para a emoção; perdemos para nós mesmos; faltou estrutura emocional e tantas outras constatações óbvias.

Só o Dunga não quer!

Nosso digníssimo treinador afirmou que não acredita em trabalhos psicológicos no esporte. Talvez ele não deva acreditar em humildade, educação e modernidade também. Tem gente que prefere morrer abraçado à própria miséria em vez de dividir os louros da vitória. Cada um, cada um, certo? O preço que este tipo de gente costuma pagar não é nada barato.

Futebol feminino por um triz novamente
Faltou um pouco mais de calma e equilíbrio para matar as adversárias. Uma pena. O futebol (esporte das contradições) é implacável. Marta e meninas: levantem a cabeça que a nossa hora vai chegar. Vocês foram sensacionais e deram uma lição de dedicação e superação aos nossos marmanjos que foram fazer compras em Pequim!

Parabéns, colega Sâmia!

Profissional dedicada e extremamente capacitada. Além de saber muito sobre Psicologia do Esporte, Sâmia conhece o vôlei e sabe trabalhar como ninguém os meandros da alma e das emoções de nossas atletas. Ela teve participação mais do que ativa na conquista do ouro olímpico. Parabéns, colega! Valeu pela luta e dedicação! Tomara que as demais modalidades sigam o seu exemplo.

Ouro do Brasil?

Não. As medalhas de ouro pertencem aos heróis e heroínas que as conquistaram. O Brasil apenas bate palma e lamenta, mais uma vez, a falta de condições de trabalho, patrocínio, treinamento, dignidade e respeito a seus atletas. Parabéns a todos que nasceram no país e venceram todas os adversários dentro e fora de nossos limites geográficos. Eles e elas, sim, merecem reverência e admiração.

Sentimentalismo x Patriotismo (luta da mídia)

Para disfarçar o clima de tristeza após a derrota do nosso vôlei masculino na final para os Estados Unidos (mais que merecida, por sinal), a Rede Globo, em vez de oferecer alternativas para o futuro de nosso esporte, abordar a vitória dos americanos e o nítido declínio do time brasileiro nos últimos meses, optou em inserir as imagens do ouro feminino conquistado na manhã do mesmo dia em Pequim.

A quem eles pretendem enganar? Vale tudo para o pobre do telespectador não desligar o aparelho televisor. É prudente não confundir sentimentalismo com patriotismo. Um momento revoltante, sem dúvida!

Fidel manda rever o esporte no país

Fidel Castro não gostou nada do rendimento do país nas Olimpíadas. Até porque, o esporte, em Cuba, é concebido e trabalhado como uma espécie de bandeira que representa o avanço e desenvolvimento da ilha. Cá entre nós, amigos, a decadência econômica, política e social de Cuba esteve estampada no rendimento de seus atletas.

Potencial x rendimento

Um país com nossas dimensões, clima, atletas e talento não poderia conquistar apenas três medalhas de ouro. Esta, talvez, seja a mais cruel e triste contradição de todas as demais. Como pode um país, com tanto potencial, deixar de investir no esporte como um meio de facilitação social, cultural e educacional? A criançada, por aqui, continua fumando crack e matando. As quadras (poliesportivas e do tempo do onça) quebradas e vazias. Estamos muito atrasados, amigos. Muito mesmo!

Mais sobre psicologia no esporte: http://www.ceppe.com.br/

Última atualização ( Qua, 10 de Setembro de 2008 )