Destaque do mês
- Treinamento Mental - Nataly Exner - Blog MENTE CAMPEÃ
- Revista VEJA - Prof. João Cozac e José Carlos Brunoro falam sobre ética no esporte
- Neymar e Psicologia - Programa Fantástico - Rede Globo - análise do comportamento do atleta santista
- Prof. João Cozac comenta sobre as deficiências na liderança do técnico Felipão
- João Cozac no Programa da Jovem Pan com Wanderley Nogueira
- Phil Jackson: de Psicólogo na Carolina do Norte a treinador unodecacampeão (2010) da NBA
- Revista Isto É - "Futebol no divã" - participação do Prof. João Cozac
- XIV Congresso Brasileiro de Psicologia do Esporte
- Revista Psique - Entrevista na íntegra - Prof. Cozac
- Prof. João Cozac - Terra Esportes - "comportamento de meninos santistas"
| A história se repete no Palmeiras: tradição ou melancolia? |
| Escrito por João Ricardo Cozac | ||
| Qui, 20 de Outubro de 2011 | ||
*Por Gustavo Bonini Castellana Mais uma vez o Palmeiras perde de virada um jogo fácil ou praticamente ganho dentro de casa. Imediatamente uma pergunta surge à consciência de todo torcedor palmeirense: o que acontece com este clube e com estes jogadores que permitem que situações como esta ocorram com tanta freqüência? Mesmo que as estatísticas não confirmem esta impressão, a relevância de alguns jogos e o sentimento gerado ao longo dos anos é algo notável entre os palmeirense. Se alguém perguntar a um corintiano, santista ou são paulino quantas vezes se recorda de resultados como este terem ocorrido com seu time do coração, certamente farão um grande esforço para se lembrar. Já no Palestra Itália ecoam imediatamente desabafos, no primeiro gol do time adversário: “já vi esse filme...”. Desde o ano passado, muito tem se falado sobre a necessidade de um trabalho psicólogico com o time. Felipão costuma gostar da idéia. Particularmente, acho que o maior ganho seria a orientação psicológica à diretoria do clube. Explico por quê. Mas para tanto, é fundamental a compreensão histórica e estrutural do clube, para que este trabalho não seja leviano e não se reduza à prática ineficaz de terapias motivacionais baseadas em literatura de auto-ajuda. Historicamente, diferenças são notáveis no modo de gerenciar os quatro maiores clubes de São Paulo. Ainda que mudem as diretorias, os jogadores e também os títulos de cada clube em cada época, o modus operandi das diretorias se mantêm de forma razoavelmente previsível desde o meio do século XX, quando o futebol passou a ser encarado profissionalmente. Estes padrões podem ser explicados pelo tipo psicológico que costuma caracterizar o torcedor corintiano, são-paulino, santista e palmeirense, já que a maior parte dos diretores é composta pelos torcedores mais fanáticos e estereotipados de seus respectivos clubes - caso contrário, não se dedicariam tanto a essa função e não se tornariam diretores. Hipocrates, e posteriormente Galeno, com a teoria dos humores, costumavam catalogar as pessoas em basicamente quatro tipos psicológicos: os melancólicos, os coléricos, os sanguíneos e os fleumáticos, de acordo com a predominância das características fundamentais de sua personalidade. O corintiano sempre se orgulhou do sofrimento que vivencia cotidianamente com seu time. Nada mais emblemático que o aumento expressivo do número de torcedores ao longo dos 23 anos de fila. Quando alguém afirma que os outros torcedores torcem pela vitória, enquanto o corintiano torce pelo seu time, que me perdoem a vaidade dos palmeirense, santistas e são-paulinos, mas é a mais pura verdade. O corintiano grita mais paixão quando perde a Libertadores em pleno ano de centenário. O corintiano adora quando o empate é suado. O corintiano é pulsão. É Neto, é Casão, é Ronaldo(s), é Viola e Tupãzinho. É “maloqueiro e sofredô”. O corintiano é atemporal, segue um tempo ilógico, com resultados invariavelmente apragmáticos, improváveis e imprevisíveis. É o sanguíneo de Hipócrates. Já o são paulino é conhecido por sua indiferença frente aos campeonatos nacionais. Tal qual o paulistano da elite (o estereótipo do torcedor sã paulino), que só compra roupas, artigos e comida “do estrangeiro”” , o são paulino gosta mesmo é do que vem de fora - a Libertadores. O são paulino é a elegância de Raí, a educação de Leonardo e Kaká, a soberba e a arrogância de Rogério Ceni e Muricy Ramalho. Confia tanto em seu trabalho que aposta sempre no presente, mesmo que o presente não mostre resultados. O são paulino é objetivo e pragmático. É o fleugmatico de Hipocrates. Santos. Quando vencedor, o time é o propulsor do futebol moleque, atrevido, irresponsável, praiano, seja em 1958, 2002 ou 2010. Importante notar que o santista não é refém do passado, mesmo que tenha o passado mais emblemático e o jogador mais importante da história do futebol. O santista está sempre de olho no futuro, apostando nos “meninos da vila”. O santista é Ganso e Neymar, Diego e Robinho, Pelé e Coutinho, pratas da casa. Aposta no futuro quando desanda o presente. É o colérico de Hipócrates. E o palmeirense? Sujeito saudosista arraigado à tradição italiana. Refém da história, está sempre se vangloriando dos tempos áureos de Paleeeestra! (com a sonoridade de Roberto Avalone), de Ademir da Guia, da “Academia de futebol” com “A” maiúsculo. Aposta sempre em jogadores do passado que “honraram a camisa”. Jogador em má fase em outro clube falou que quer voltar pro Palmeiras? Tá contratado! O palmeirense é impulviso e irracional. É Marcos (principalmente em entrevistas), é Edmundo, é Cesar Maluco, e mais recentemente, Cleber gladiador e Valdivia. Repete o passado quando vai mal o presente. É o melancólico de Hipocrates. E o que Hipócrates tem a ver com o futebol? E mais ainda, com os resultados do Palmeiras? Acredito que a estrutura melancólica característica da torcida de um clube - e de sua diretoria conseqüentemente- contamine o ambiente de trabalho de forma tão determinante que fica impossível ao jogador estabelecer uma história autônoma no clube, uma história que não seja sintônica com a cultura do clube e que não “obedeça” aos padrões já esperados por sua torcida. O Palmeiras vive há alguns anos uma crise de auto-estima que pode ser compreendida pela sombra que o passado de glória impõe ao time. Cada jogador sente o peso da cobrança de, mais do que jogar em um grande clube, fazer mais do que as grandes glórias da história deste clube. O craque de hoje é assombrado pelo craque do passado, o Felipão de hoje é assombrado pelo Felipão do passado, o segundo tempo do jogo de hoje é assombrado pelo primeiro tempo do mesmo jogo. Para o Palmeiras sair desta crise, poderá montar sua estratégia em duas abordagens bastante opostas: a aposta em uma gestão profissional, pragmática e assim sendo, o contrário da cultura do clube (vide exemplo do estilo Luxemburgo na gestão Brunoro-Parmalat nos anos 90), ou a aposta no fortalecimento da cultura melancólica do clube, valorizando profissionais que trabalham bem dentro desta sintonia, como Felipão em 1999. Neste caso, Felipão continua sendo o único e melhor nome a trabalhar bem no esquema “família” (vide copa do mundo de 2002). É preciso, assim, que o profissional que se dispuser a ajudar o time seja também conhecedor da cultura do clube, e possa trabalhar na proteção dos jogadores, contendo os afetos apaixonados e desenfreados provindos da direção e da torcida. Deverá ajudar o técnico-único profissional habilitado a cobrar os jogadores de forma consistente e eficaz- a centralizar seu comando, tal qual uma verdadeira “família”- não é à toa que Felipão gosta tanto deste termo. Fazendo-se a escolha por este modelo de gestão, os divãs não serão instalados dentro de campo ou nos vestiários, mas nos camarotes habitados por diretoria e por fantasmas do passado, que há mais de 90 anos assombram o Palestra Itália. Gustavo Bonini Castellana
Psiquiatra e psicoterapeuta pela FMUSP Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. |

