Treinadores: química ou competência?
Escrito por João Ricardo Cozac   
Sex, 21 de Agosto de 2009

  

 

Amigos, recebi inúmeras mensagens de leitores da Ge.Net indagando este colunista sobre a real participação dos treinadores no desempenho dos atletas e das equipes.

Confesso que tenho minhas dúvidas sobre este tema. Após acompanhar o futebol de perto por mais de três décadas, acredito que a química entre treinador e time é mais importante que o conhecimento tático e técnico que ele pode oferecer ao elenco.

Obviamente que há raras exceções neste percurso. De uma forma geral, a disposição e motivação dos atletas acabam sendo fatores mais determinantes que os próprios conhecimentos dos treinadores.

Creio que o melhor exemplo está na condução do técnico Dunga. Marrento, antipático e muito pouco solícito, o técnico da Seleção tem obtido ótimos resultados e deverá permanecer no comando até a Copa do Mundo no ano que vem. Dunga nunca foi treinador de time algum na vida. Ele conta com um plantel de atletas invejável que já deu provas de que quando quer jogar, ganha e não tem para ninguém. Quando o time está apático e desinteressado, pode cansar de trocar o treinador que nada mudará. Felipão, Parreira, Luxemburgo e tantos outros treinadores que o digam.

Muricy é o caso da moda. Depois de anos de química, trabalho e motivação no São Paulo, ainda não emplacou no Palmeiras. O que estaria se passando com ele? Afinal, foram poucos os pontos conquistados nas últimas partidas para uma contratação de peso como a sua. Acompanhei a equipe de Palestra Itália quando foi dirigida pelo Jorginho e o astral era bem diferente. Havia alegria, sinergia, foco, criatividade e prazer no semblante e ação dos atletas. O Palmeiras atual tem o pragmatismo do Muricy que deveria ter dado um tempo maior de férias para si e retomado a energia e o desejo pela profissão com mais afinco e paixão. Pior: se a equipe não reagir logo, a torcida gritará o nome de Jorginho nas arquibancadas e o clima, convenhamos, não será dos melhores.

A apatia do treinador palestrino me parece ter iniciado ainda no final de seu ciclo nos ares do Morumbi. O que está ocorrendo neste momento é apenas o deslocamento desta energia de um time para o outro. Os jogadores sentem e o grupo, como um todo, aspira este cansaço que vem do banco de reserva. Muitos dirão sobre a penalidade inexistente diante do Coritiba. Já, outros, dirão que é questão de tempo e adaptação ao treinador do Palmeiras. Todas estas hipóteses são viáveis. No entanto, a lógica da engrenagem parece ter tropeçado em alguma reação química que, até o presente momento, não demonstrou eficácia e alegria.

Sobre o Renato Gaúcho, tenho pouco a dizer. Ele é apenas mais um caso de um treinador que deveria se ausentar por mais tempo do cenário futebolístico nacional. Os dirigentes do Fluminense devolveram sua chave do armário cativo que tem nas Laranjeiras. O Vasco ele já rebaixou no ano passado. Será que os tricolores vão para o mesmo buraco?

Outro dia escutei o presidente do Sport, Silvio Guimarães, declarar numa rádio local que o salário de 150 mil reais aos treinadores virou dinheiro de pinga. Tem muito técnico por aí que nem retorna a proposta neste nível salarial. Qual o executivo (pessoa “comum”) que ganha esta quantia em um mês de trabalho?

O final deste imbróglio, amigos, é simples: jogador (bom) quando está a fim de jogo, ninguém segura. Se esta motivação se espalhar pela equipe, ótimo. Do contrário, a cabeça do treinador será o prêmio pela sua ineficácia na tentativa de ganhar a confiança e servir de exemplo aos atletas.

Última atualização ( Sex, 21 de Agosto de 2009 )