Mente e corpo: unidades de um todo
Escrito por João Ricardo Cozac   
Qua, 24 de Junho de 2009

  

 

Muitos ainda pensam que a atual psicologia esportiva é a mesma utilizada pelo professor João Carvalhaes no final da década de 1950, início da década de 1960. Há um grande erro nesta constatação. A psicologia enquanto ciência humana tem apenas 100 anos de vida e aplicada ao esporte é ainda mais recente: não conta com mais de 30 ou 40 anos de estudos e aplicações. Na época em que o professor Carvalhaes foi convidado para ser o psicólogo da Seleção Brasileira, não havia ferramentas científicas (testes e pesquisas) que pudessem auxiliar em sua intervenção. Ele contava apenas com o tal teste psicotécnico que, até hoje em dia, é adotado pelas auto-escolas no exame para tirar carteira de motorista.

Ora, amigos, o tempo passou. Garrincha foi reprovado nos exames de Carvalhaes? Sim. Com os resultados obtidos nos testes, o jogador apresentava uma frágil condição psicológica. Tecnicamente, Mané dispensa comentários. Com a ginga e todo aquele jeito folclórico de ser, Garrincha morreu de cirrose hepática, por não conseguir se livrar do vício que acabou deixando as tardes de domingo no Maracanã mais tristes.

NOVO PANORAMA
Será que os resultados dos testes aplicados outrora já não apontavam para esta fragilidade de personalidade do nosso astro maior? Creio que sim. Atualmente, sem a menor sombra de dúvidas, os testes estão mais modernos (ainda insuficientes, é bom que se frise) e capazes de traçar um diagnóstico mais completo e esmiuçado da esfera mental e emocional do atleta. Já é hora de parar de comparar o Fuscão 1968 (com o merecido respeito) com a última Mercedes que desfila na Europa.

Gerenciamento da concentração, controle da ansiedade pré-competitiva, motivação, equilíbrio mental e emocional são apenas alguns dos pilares fundamentais que garantirão o complemento de um adequado treinamento esportivo. Especialmente aos corredores e maratonistas que buscam, a todo preço, fugir da tal “fratura psicológica” que, em algumas situações, os paralisam no meio de uma prova.

As novas demandas dos atletas de alto rendimento devem ser mais bem compreendidas, pesquisadas e trabalhadas. É fundamental o contato do psicólogo esportivo com os demais profissionais que administram a preparação atlética desportiva. Por conta do preconceito e desinformação de boa parte das pessoas envolvidas no esporte, a esfera mental ainda é concebida com lentes antigas e difusas.

Está na hora de virar a página do calendário e estimular as pesquisas que contribuem com o alto rendimento dos atletas, priorizam os esportes de lazer e recreação, além de promover e prevenir a saúde por meio de práticas esportivas. *No Brasil, a cultura da valorização mental ainda sofre preconceitos por conta da desinformação da maioria dos dirigentes, atletas e treinadores. *Para piorar, a medicina (suposta aliada) insiste em resolver sozinha as enfermidades que, na maioria dos casos, é de origem emocional.

MEDICINA + PSICOLOGIA
A medicina existe há milhares de anos. Como ainda é possível se conceber que alguém possa morrer de câncer? Quantos anos mais serão necessários para que se descubra a cura da AIDS? As respostas para estas e outras questões ainda continuam uma incógnita para os médicos e cientistas deste planeta. Aliás, atrevo-me a dizer que é um desafio que já deveria ter sido vencido há tempos pelos pesquisadores da área médica.

Corredores e demais atletas já podem contar com trabalhos psicológicos integrados com os físicos que são capazes de turbinar a performance e ampliar a capacidade de resistência naquelas provas mais longas e desgastantes.

Visualizar a competição em estado de relaxamento através dos comandos de um psicólogo do esporte é uma prática que facilita a ampliação dos níveis de concentração do atleta. O controle da respiração, sobretudo, é uma das principais dificuldades demonstradas por maratonistas. A ansiedade, em geral, promove um ciclo curto de respiração, contribuindo para a fadiga precoce em uma competição. A origem é psicológica, mas a busca pela dissolução deste sintoma quase sempre é médica.

A esmagadora maioria dos médicos (principalmente os médicos do esporte) simplesmente ignora a atuação da mente nos processos físicos e fisiológicos dos atletas. Muitos ainda juram de pé junto que a psicologia não tem lugar no tratamento de atletas lesionados, por exemplo. Enquanto este quadro não mudar, a dicotomia cartesiana mente x corpo continuará imperando no parcial tratamento que é oferecido aos nossos atletas. Um pouco mais de cabeça e menos ressonância magnética, por favor.

Todos irão ganhar. Acreditem!

Última atualização ( Qua, 24 de Junho de 2009 )