Neymar e Psicologia – Programa Fantástico – Rede Globo – análise do comportamento do atleta santista

Acompanhe a matéria sobre a análise do comportamento do jogador Neymar divulgada no programa Fantástico da Rede Globo clicando aqui

Programa “Fantástico” – Rede Globo – 19/09/2010

No jogo da última quarta-feira (15), contra o Atlético-GO, o Fantástico deixou uma câmera apontada para o menino prodígio do Santos, Neymar, durante os 90 minutos, para entender o que está acontecendo com o atacante. Jogar, ele ainda joga muito. Mas o comportamento mudou bastante. Por quê?

“O Neymar é um garoto sorridente, alegre, feliz. Só quero jogar bola”, declarou o atacante do Santos, aos 13 anos.

Aos 13 anos, o futuro de Neymar já era conhecido: ele seria craque do Santos. Entrou no time aos 17 anos, comemorando gols ao estilo de Pelé.

Em 2010, aos 18 anos, ao lado de Ganso e Robinho, ganhou o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil. Não foi para a seleção, mas, logo depois do mundial, quase se transferiu para o milionário Chelsea, da Inglaterra.

Então, setembro chegou. E, já como estrela maior do time, sem Robinho e Ganso ao seu lado, Neymar se meteu em seguidas confusões. No dia 2, ele teria provocado um jogador do Avaí.

“Ele disse que ‘eu sou lucro, eu posso tudo, eu sou milionário’”, conta Emerson, do Avaí.

No dia 12, novo conflito, agora com jogadores do Ceará. Enfurecido com as faltas recebidas durante o jogo, Neymar começou uma briga com João Marcos, e outros jogadores acabaram se envolvendo.

Na quarta-feira passada (15), o Fantástico instalou na Vila Belmiro uma câmera exclusiva. O objetivo era focalizar Neymar nos 90 minutos do jogo contra o Atlético- Go. Mais uma vez, ele teve problemas.

O que está acontecendo com esse menino? Para tentar entender, o Fantástico convidou psicólogos para botar o Neymar no divã.

“Eu acho que o Neymar é um adolescente testando limites, e isso é uma questão típica da adolescência”, avalia o psicólogo Fernando Tavares de Lima.

“É um problema comum com 300 câmeras em cima dele o tempo todo”, conclui o psicólogo.

Antes do jogo, a câmera do Fantástico encontrou um Neymar bem tranquilo, cercado de crianças. Nos primeiros minutos, ele deu força para os companheiros e não se incomodou nem com a marcação forte. Depois de bater um escanteio que não deu em nada, pediu desculpas a Edu Dracena, capitão do time.

“De repente, é muita coisa para a cabeça de um jogador de 18 anos que até ano passado ainda era uma dúvida e hoje é uma realidade”, diz Edu Dracena.

“Não é da noite para o dia que ele vai conseguir se adaptar às exigências, às pressões e principalmente às expectativas de todo o mundo do futebol”, pondera João Ricardo Cozac, psicólogo.

“A saída do Robinho e do Paulo Henrique deixou Neymar na condição de mito único ali dentro. E ele não pode ser ainda um mito. Ele está se transformando. Ele é um excelente jogador, mas ainda é um garoto em formação”, diz Fernando Tavares.

Em campo, as coisas se complicavam. O Santos perdia por 2 x 0, e Neymar começou a exigir a marcação de alguma faltas.

“Você não pode tentar transformar o Neymar em um anjo. Você pode aniquilar inclusive a parte de talento, a parte de performance”, alerta João Ricardo.

Neymar pegou pesado em uma reclamação com o bandeirinha.

“Para ser jogador de futebol, você não passa pelas etapas do desenvolvimento humano: pré-adolescência, adolescência, fase adulta”, ressalta o psicólogo Joao.

“Talvez Neymar, aos 14 anos, não tenha podido viver a vida de um menino de 14. Talvez ele fosse não apenas a esperança da família para mudar, mas do próprio clube, de empresários, de pessoas que já estavam depositando uma expectativa muito grande”, diz Fernando.

Quando sofreu uma falta na entrada da área, Neymar fez questão de bater. Ele deixou a cobrança para Marcel, e o goleiro Márcio defendeu.

Mas, aos 37 minutos do segundo tempo, aconteceu o que ninguém esperava: pênalti em Neymar. Ele pegou a bola. Léo, um dos jogadores mais respeitados pelo time, levou o recado do técnico Dorival Júnior. Neymar explodiu. Léo pediu calma. Neymar andou desnorteado pela beira do campo.

Dos seis pênaltis que tinha batido no Campeonato Brasileiro, Neymar perdeu três. A ordem do banco foi para Marcel cobrar contra o Atlético-GO. Gol. Vitória do Santos por 4 x 2.

“Tem uma questão que fica evidente no momento do pênalti: a dificuldade explicita do Neymar em lidar com uma situação de limite. Você não vai bater. Tudo bem, eu não vou bater. Tenho que pensar na minha equipe, a minha equipe é mais importante do que eu”, avalia João Ricardo.

“Ele se vê talvez como o ideal, a pessoal especial, um eleito”, acredita Fernando Tavares.

Nos últimos minutos, ele jogou de um jeito estranho, exagerou nas firulas. O capitão, Edu Dracena, reclamou de um gol perdido por Neymar, que explodiu de novo.

Não havia mais diálogo possível com Neymar. Nem o capitão, nem o técnico conseguiram evitar a enxurrada de gritos e palavrões.

“Poucas vezes eu vi alguém tão mal-educado esportivamente quanto esse rapaz Neymar. Nós estamos criando um monstro no futebol brasileiro”, dispara Renê Simões, técnico do Atlético-GO.

“Também não vamos transformar o que está acontecendo em um cavalo de batalha. Está havendo um problema, ele precisa de orientação. Acho que já se passou do momento de uma orientação, inclusive na família do Neymar”, diz Fernando.

“A gente não está aqui para passar a mão na cabeça. E ele sabe que errou. Tanto que foi resolvido. Só que as emoções do Neymar estão à flor da pele. Você pega um cara de 18 anos que está bombando”, comenta o pai do jogador, Neymar Santos.

“Com 18 anos, ele precisa ouvir ‘nãos’”, diz Fernando

“Eu tenho vontade de fazer um carinho duro nele, que é um pouco puxão de orelha e um pouco carinho. Ele precisa se conscientizar que daqui para frente, ou ele age como um adulto ou os problemas vão começar a aparecer. E aí o puxão de orelha seria na linha da humildade. Neymar precisa ser um pouco mais humilde, a distância parece que é isso que está um pouco fora do controle”, conclui Tavares.

Escrito por João Ricardo Cozac
Seg, 20 de Setembro de 2010