Torcidas de futebol e as sombras de uma paixão

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Assim sou eu – meu jeito de expressar afeto – minha paixão. Possuo e perco , te tenho em recomensa – te perco em identidade. Meu time expressa os anseios, as dúvidas, as angústias – meu medo, prazer e amor. Voz social ou herói mudo – respiro as palavras do cântico de meu povo. Coloco mais números na minha identidade. Número dos desencontros da vida, dos encontros da alma – da sabedoria popular e mais íntimo sentimento de legitimidade. Não sei quem sou – para onde vou. Sei que preciso disso. Nada mais que isso.

Posso sofrer com a dor alheia – mas a minha paz depende de ti. Me transformo em linguagem e propriedade – de privada para pública – de formal para anônimo – aliás, anonimato preso na posse de tudo o que não me pertence e, ao mesmo tempo, vive em mim. Busco meu nome, encontro o nosso – não entendo, vocês me explicam – o que de mim faz em automatismo e sentimento, de luz – as trevas, do pão – o sangue, da canção – o pranto. O cimento do asfalto frio que abraça minha esperança compõe o cenário de meu instinto, da luta pelo espaço do afeto, da revolta pela injustiça, do momento quase eterno.

O pranto que enverga o mastro da bandeira grita a mais íntima forma de comunicação e expressão do ser que em mim habita e que em nós sobrevive. Roubo sua malha para vestir meu corpo – rede unida – meu campo articula. Tremula o legado da família de sangue, da alma e das cores.

Sou o que vejo em ti – tu, em mim, extravasas o som, a luz e as imagens de um tom melhor. Não me reconheço mais – envolto na atmosfera e no parque da ilusão – sacrifico o som pela tua emoção – para sempre, a razão do mais irracional dos comportamentos. Não evito, brigo. Não contesto, afirmo. Não vivo, crio. Não duvide, essa é minha maior verdade.
Já não sei mais quem sou eu e quem somos nós!

João Ricardo Cozac – torcidas organizadas – pânico, reflexão e identidade.

Escrito por João Ricardo Cozac
Dom, 03 de Março de 2013