Rogerio Ceni e a difícil arte de parar

mPara falar sobre um ídolo, é preciso cuidado, sempre. Vivemos num país carente dessas figuras e qualquer coisa que não seja confetes e serpentinas não é lida nem compreendida de forma sóbria, construtiva e objetiva. Portanto, se você é um são-paulino daqueles que embarcam na emoção do fanatismo quase religioso pelo camisa 1 – talvez não irá gostar das palavras que seguem nesse texto. Por outro lado, se você quiser debater sobre um tema recorrente no nosso esporte – a aposentadoria e as dificuldades humanas dos jogadores – será um prazer tê-lo como interlocutor nessa reflexão.

A dificuldade que muitos atletas têm de encerrar a carreira deveria ser trabalhada nos clubes pelos profissionais da Psicologia do Esporte. No entanto, o que vemos são ídolos perdendo o timing sem perceber que podem prejudicar um passado de conquistas e glórias que consolidaram a admiração dos torcedores.

Confesso que o caso de Rogério Ceni me chamou a atenção – muitos mais que o de Romário e outros tantos jogadores que permaneceram em campo sem a metade da capacidade técnica apresentada nos tempos de ouro de suas carreiras. Ceni sempre demonstrou equilíbrio e coerência em suas atitudes e palavras – além da profunda afiliação institucional com o São Paulo. Será que o ídolo tricolor não consegue se enxergar e reconhecer distante das metas? O conceito básico e primordial da Psicologia Social é o de que “somos aquilo fazemos”. Ou, se preferirem, “a identidade é construída nas relações sociais”. Assim sendo, a tarefa de buscar novos horizontes de pertencimento e ação, acreditem,  não é simples. Independente da classe sociocultural – a autorreinvenção exige uma disponibilidade interna e uma força de adaptação a novos ambientes e novas tarefas.

O caso de Rogério Ceni com o São Paulo transcende todas essas etapas e segmentos psicológicos e emocionais. O goleiro tornou-se um patrimônio do clube que, muito possivelmente, poderia ter encerrado a carreira em momentos de glória e com o troféu na mão. A conquista da Copa Sul Americana foi um convite – uma espécie de “deixa” –  para uma despedida triunfal dos gramados. Afinal, não é de hoje que o atleta oscila apresentações fabulosas e falhas grosseiras (reflexo reduzido, tempo de bola atrasado e outras deficiências que surgem para todos que estão ali convivendo com as corrosivas e naturais ações cronológicas). Seduzido pelo desejo de continuidade e, claramente demonstrando dificuldades em abandonar os gramados, Rogério permaneceu em campo e viveu, pouco tempo atrás, a pior sequência de resultados da história do clube. Algo que ele – certamente – não precisava ter vivenciado após tantos títulos pelo São Paulo.

Rogério não demonstra interesse em trilhar a carreira política no clube. Talvez mude de ideia. Fato é que dificilmente Ceni se distanciará do São Paulo, sua segunda casa e o habitat natural daquele que fundamentou sua identidade e suas ações repletas de conquistas em quase duas décadas de doação. A fusão do ser humano com os pilares da instituição representa, hoje, um dos atacantes mais perigosos que o goleiro enfrenta nas quatro linhas do campo. Até porque, os corredores que levam Ceni para fora dos estádios ainda são inóspitos e amedrontadores.

Escrito por João Ricardo Cozac
Sáb, 10 de Agosto de 2013