Psicologia do Esporte no futebol: carta aberta

BOLA MURCHAApós 22 anos de pesquisas, intervenções e publicações na Psicologia do Esporte, lamento ter que escrever esse texto em pleno 2014. No entanto, o preconceito e a desinformação de boa parte dos dirigentes e treinadores esportivos (especialmente do futebol) me fizeram iniciar essa reflexão que é mais que um simples artigo – um necessário alerta de saúde pública que, pelo visto, várias instituições brasileiras desconhecem ou insistem em fazer vistas grossas.

O Estatuto da Criança e do Adolescente exige que os clubes formadores de atletas, tenham – em suas comissões técnicas, ao menos um psicólogo formado para atuar com os demais profissionais. Do contrário, multas e sanções são bastante severas.

Como vivemos num país em que o “jeitinho brasileiro” costuma imperar quando o assunto é dinheiro, várias agremiações contratam psicólogos recém formados e sem conhecimento algum da área esportiva, esposas de dirigentes que são formadas em Psicologia e outros truques para que os documentos sejam assinados – as multas evitadas e, infelizmente, o trabalho não realizado de acordo com as demandas psicológicas, sociais e emocionais dos grupos de atletas. Isso sem contar o salário que é oferecido aos psicólogos do esporte – especialmente os que atuarão nas equipes de base. E aqui faço meu primeiro pedido: caro psicólogo do esporte, por favor NÃO ACEITE as condições e os salários irrisórios que os clubes de futebol oferecem à nossa classe. Aceitar essas condições é endossar a banalização de nossa área e as demandas das crianças e adolescentes em formação no esporte e na vida.

Conheço profissionais que atuavam em equipes de futebol e que – após eleições políticas, foram chamados para receber o tal bilhete azul – a demissão fruto da ignorância de vários dirigentes que assumem postos administrativos com o intuito apenas de reduzir a folha salarial do clube. Nesse processo, demitem nutricionista, psicólogo, médico e outros profissionais que – durante muito tempo – construíram atuações multi e interdisciplinares extremamente importantes e efetivas.

Quando constato os milhões de reais, euros e dólares envolvidos nas transações de jogadores de futebol e a superficialidade na concepção de treinamento esportivo dos governadores do mundo da bola – confesso que aumenta meu desprezo por essa modalidade que, historicamente, tão bem nos representou no cenário esportivo mundial.

Os clubes se esquecem (ou fingem que esquecem) que tem uma responsabilidade social na vida desses garotos. Há instituições que não contam com assistentes sociais nem psicólogos. Possivelmente acreditam que esse é um dinheiro que pode ser poupado ou investido em outras áreas do clube. A tal “economia burra” gera muito mais prejuízos do que contenção de gastos. E aqui vai meu segundo pedido: caro psicólogo do esporte, aceite apenas a oportunidade de trabalho no futebol (e em outras modalidades) se, e somente se, tiver o apoio e a valorização dos demais membros da comissão técnica e da filosofia organizacional vigente. Nesses casos, certifique-se que o discurso do tipo “estamos sem verba” ou, “no momento não há espaço” ou, “depois conversamos” não seja a desculpa pronta para os que desconhecem a importância do treinamento psicológico no clube. Até porque, guardadas as devidas proporções, os ganhos na estruturação de um departamento de Psicologia do Esporte são potencialmente superiores aos da aquisição de um novo atleta.

Portanto, caro colega, em meu nome e no da Associação Paulista da Psicologia do Esporte, reforço a luta pelas novas pesquisas, contribuições e atuações psicológicas no esporte – assim como a dignidade de nosso espaço de atuação e a legitimidade da ciência que lutamos pelo reconhecimento e valorização.
Prof. João Ricardo Cozac – Psicólogo do Esporte; Presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte e do Exercício Físico; Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia do Esporte;
Diretor Clínico da Consultoria, Estudo e Pesquisa da Psicologia do Esporte;Professor do Curso de Formação em Psicologia do Esporte;Mestre em Educação – Mackenzie;Doutorando pela Escola de Esportes de Educação Física – USP. Atua no esporte desde 1993 .Autor dos livros “Com a cabeça na ponta da chuteira” , “Psicologia do Esporte: clínica, alta performance e atividade física” (editora Annablume) e “Psicologia do Esporte: atleta e ser humano em ação” (Grupo Gen). Contatos – www.appeesp.com e [email protected]
Escrito por João Ricardo Cozac
Sex, 21 de Fevereiro de 2014