Medo do Sucesso – usina de derrotas

Texto4Nesses últimos vinte anos pesquisando e atuando com proximidade o comportamento humano associado ao esporte – constatei o crescimento e a expressão de uma emoção complexa e rotineira: o medo do sucesso.  Para alguns pode soar estranha a ideia de um atleta ter medo de vencer. Até porque, imagina-se que esse seja o alvo principal de uma ação esportiva de alto rendimento. Até então, temer a derrota parece-me mais coerente diante desse caminho cognitivo de metas esportivas.

Como o plano emocional é cercado por nuances surpreendentes ao raciocínio humano – devo relatar que o medo do sucesso tem crescido de forma alarmante no plano das tendências competitivas – exigindo o aumento de estudos de campo dos pesquisadores do comportamento humano no esporte e fora dele.

Esse medo pode estar associado a uma perigosa forma de autoboicote que depõe contra o esforço e dedicação diária de atletas que fazem do esporte,  o ofício e objetivo de suas ações profissionais e sociais. O sentido e significado da vitória assumiram contornos difíceis de serem internalizados – o que gera  necessariamente – uma reflexão mais profunda sobre os aspectos humanos no universo das emoções do ser atleta.

Na rota da competição nos campos, ginásios, piscinas, quadras e arenas de todo o mundo – o medo do sucesso traz consigo o convite a uma viagem sobre os aspectos da identidade e da constituição do afeto social e familiar nos holofotes da vida. O trabalho psicológico com atletas necessita de maior aproximação com as vivências pessoais e construções de sentidos atribuídos a experiências competitivas nos mais variados cenários.

O quebra-cabeça do comportamento emocional é um desafio para os cientistas do esporte que devem acompanhar a dinâmica sócio afetiva dos praticantes de esporte e atividade física no espectro do alto rendimento ou apenas na planificação de metas para o exercício físico voltado para o ganho de saúde e qualidade de vida.

Vale dizer que nem sempre os atletas que evitam a derrota – perseguem a vitória. Entrar para não perder é diferente da postura mental de iniciar uma prova com o intuito de vencer. Os significados da derrota e vitória estão mudando de acordo com as relações sociais e do afeto quase sempre perdido e/ou danificado na caixa preta pessoal de cada indivíduo que – no ato esportivo, explicita suas dificuldades e conflitos diante das representações
elaboradas nas experiências passadas.

Atleta e ser humano em ação. Essa é a dica para mirarmos o olhar àquele que nos procura na clínica – quase sempre com a queixa de queda da concentração –  aumento da ansiedade pré-competitiva ou simplesmente – pela perda do encanto na prática esportiva. Os segredos, quase sempre, estão escondidos bem longe de onde, a princípio, imaginamos encontrar as diretrizes e motivações desses jovens heróis que buscam a superação e realização pessoal através do esporte.

Escrito por João Ricardo Cozac
Sáb, 10 de Agosto de 2013