Adolescência, transição e esporte

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“Jogo o suficiente apenas para saber que posso ganhar do meu adversário. Quando tenho a certeza que isso é verdade, o resultado perde o sentido – saio do jogo e chego em casa, derrotado. Especialmente quando me dou conta que poderia ter vencido a partida”.

Recordo-me das palavras de um tenista por mim atendido alguns anos atrás e que estava em vias de se profissionalizar – em plena fase de aprimoramento de suas habilidades técnicas, cognitivas e das demais áreas do desempenho.

Facilmente, os sintomas emocionais e psicológicos poderiam se confundir com o “medo do sucesso” – usina de derrotas tão comum no esporte moderno. No entanto, a dificuldade emocional expõe as características da fase de maturação – iniciada 10 anos atrás, quando começou a jogar tênis.

No início, há um período de conhecimento e familiarização – o primeiro e necessário passo para se conhecer a modalidade e criar os primeiros elos emocionais com a ação esportiva. Em seguida, a fase de desenvolvimento – em que o atleta busca um sentido e motivo para seguir em frente na modalidade. Nesse momento, o resultado passa a ser perseguido com afinco – e o desempenho fica em segundo plano. Aqui, atletas – com frequência, ficam satisfeitos com o resultado a despeito da qualidade da performance. Na etapa seguinte – a do aprimoramento, o desempenho se torna o protagonista dos treinos e competições. Não raro, atletas que perdem partidas em que tiveram boas atuações demonstram satisfação.

Do mesmo modo, quando vencem desafios apresentando baixo rendimento, ficam descontentes com suas ações e reforçam os treinamentos.

A etapa do aprimoramento (assim com as anteriores), que precede a profissionalização do atleta – em geral, juvenil, deve ser acompanhada por um psicólogo do esporte. As emoções e expectativas de pais e treinadores dificultam a análise e compreensão desses processos comportamentais comuns aos adolescentes que vivem mudanças físicas, hormonais, sociais e psicológicas.

O momento de transição de um atleta carece de sensibilidade, conhecimento e bom senso. Afinal, as dificuldades do ser atleta se confundem com as do ser humano. Um alerta para pais, treinadores e mestres que anseiam pelo sucesso dos garotos, sem saber – ou considerar – que existe uma escalada de etapas necessária para a consistência e segurança necessárias para o passo final: o da profissionalização.

João Ricardo Cozac é psicólogo do esporte – presidente da Associação Paulista da Psicologia do Esporte. Atende atletas de diversas modalidades em clínica há 20 anos. Autor dos livros “Com a cabeça na ponta da chuteira” – “Psicologia do Esporte: clínica, alta performance e atividade física” e “Psicologia do Esporte: atleta e ser humano em ação”. Membro acadêmico e doutorando da USP no laboratório de Psicossociologia do Esporte. Contatos: www.appeesp.com e [email protected]

Escrito por João Ricardo Cozac
Qua, 12 de Fevereiro de 2014